Mata Ciliar: repor o que usurpamos

Luiz Eduardo Cheida

O Paraná era um borrão verde no mapa há 100 anos. Dos seus 20 milhões de hectares, quase 18 milhões eram de florestas. Parte dessa exuberância se foi. Hoje, o que se mantém em pé não chega a 20 %. Em palavras mais duras, desmatamos mais de 80 % de mata nativa em menos de cem anos.

O estado tornou-se campeão nacional na produção grãos. Mas, o que nos envaidece também nos preocupa: para cada quilo de grão produzido no Brasil, perdem-se 10 quilos de solo. Pagamos um alto preço ambiental neste campeonato.

Em anos anteriores, o próprio governo incentivou que se plantasse até a beira d’água e nas áreas de várzea. O resultado foi o aniquilamento de nossas matas ciliares e, com elas, o rompimento do cinturão de segurança que se interpõe entre a terra e o rio, protegendo a ambos.

E, apesar de sermos bem-sucedidos em técnicas de conservação de solos, boa parte dos rios continua levando embora nossa fertilidade que segue, tocada pelos ventos e pelas chuvas, para dentro de suas águas. Somente o rio Ivaí despeja no rio Paraná, mais de dois milhões de toneladas do fértil solo paranaense, todos os anos. Não é mais incomum ouvir-se do agricultor que, na outrora exuberante nascente de sua propriedade, hoje corre pouco mais que um filete de água; que aquele piscoso ribeirão, já não passa de um barrento curso d’água, com pouca ou nenhuma vida.

O que fazer?

Sem pestanejar (e sem trocadilhos) repor as matas ciliares! O Governo do Paraná, por meio das secretarias de meio ambiente, agricultura e planejamento, junto ao Ministério Público, prefeituras, Embrapa, entidades patronais e universidades, iniciou há pouco mais de um ano, o Programa Mata Ciliar. Através dele, plantaremos 90 milhões de espécimes nativas ao longo de nascentes, lagos e rios do estado. Prioridade aos mananciais de abastecimento público, o arenito Caiuá, áreas degradadas e o entorno das unidades de conservação.

Os recursos são do Tesouro Estadual, Fundo Estadual de Meio Ambiente e Programa Paraná Biodiversidade. Os executores do programa são o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e a Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER), respectivamente, autarquias das secretarias estaduais de meio ambiente e agricultura. A produção de mudas se dá em viveiros de 50 metros quadrados adquiridos pela Secretaria de Meio Ambiente, por meio do IAP, doados às prefeituras e demais instituições com condições gerenciais de produção. Já foram distribuídos 280 deles, cada um com capacidade para 135 mil mudas ao ano.

Dois laboratórios de sementes do IAP analisaram 19,17 toneladas de sementes e, seus 21 viveiros, já produziram e distribuíram 18,7 milhões de nativas. Mais de 25 mil agricultores foram beneficiados. Por meio de manual técnico, elaborado pela Embrapa, identifica-se a espécie a ser plantada em cada bioma considerado. Um Comitê de Validação Técnica, composto pelo Ministério Público, Tribunal de Contas e entidades ligadas à pesquisa está sendo formado para garantir a fidelidade dos resultados.

Uma variante complementar do Programa Mata Ciliar é a doação de cercas aos agricultores com propriedades de até 30 hectares. Eles são mais de 70 por cento dos agricultores paranaenses. Por meio do Programa Paraná Biodiversidade, beneficia-se o proprietário que pretende isolar sua área de mata ciliar. Além da cerca, os programas fornecem elevadores de água e abastecedouros comunitários para que a mata ciliar permaneça intocada.

O não-plantio da roça e conseqüente abandono da área relativa à mata ciliar, também está sendo estimulada pelos órgãos patronais e cooperativas. A doação de cercas e o abandono de áreas são medidas adicionais ao plantio das 90 milhões de espécimes nativas. O que garante, ao final deste verdadeiro mutirão, um resultado muito superior àquele inicialmente proposto.

Alguns municípios já recuperaram 100 % de suas matas ciliares. Não há precedentes, no mundo, de reposição nestas dimensões. Este é, sem dúvida, o maior programa mundial de recuperação de matas ciliares. E, para se ter uma idéia da adesão social ao programa, envolvendo todos os municípios do estado, o Paraná plantou 1 milhão e 45 mil mudas de árvores nativas em um único dia. Uma pequena demonstração do que uma sociedade pode fazer quando acredita que é necessário resgatar um pouco do muito que ainda devemos ao meio ambiente do Paraná.

Luiz Eduardo Cheida – Secretário do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná. E-mail: sema@pr.gov.br