A Educação como ferramenta para o desenvolvimento sustentável

Beatriz Dornelas (*)

“Nossas idéias
Comprometidas com o bem comum,
são como sementes…
Se as guardamos, nunca darão frutos…
Se as distribuímos, estamos possibilitando
que outros as plantem, e colham os frutos
de um novo mundo, melhor e possível”.
(Beatriz Dornelas)

O Planeta Terra pede urgência na implementação de ações que possibilitem a sua sustentabilidade. Essas ações não podem ser vistas como atos isolados, de responsabilidade de alguns, mas a “ação sustentável” deve ser iniciada de dentro para fora, da postura e exemplo de cada um de nós. Do agir particular de um indivíduo, de um grupo, de uma escola, de uma comunidade, de um bairro, de uma cidade… É o “agir em partes para atingir o todo”.

A educação é a ferramenta para realização do sonho da cidadania planetária – o desenvolvimento sustentável. No seu sentido amplo e no alcance de sua função social, a educação deve ser a expressão do processo da democracia, capaz de construir a cidadania através do saber e da análise e reflexão do contexto global em que estamos inseridos. É o caminho ideal para a aquisição da identidade social, política e econômica de um povo comprometido com o equilíbrio e a preservação do Planeta Terra.

A Agenda 21 propõe ações que visem a integração entre meio ambiente e desenvolvimento sustentável. No plano estratégico, parte de uma visão integrada de diversos segmentos, onde a abordagem de cada um desses deve estar comprometida com a preservação do Planeta, através de alternativas que busquem cuidar da gestão dos recursos naturais impedindo sua escassez e promovendo em cada realidade local condições ideais de vida e conservação dos seres vivos.

Dentre esses segmentos responsáveis para a efetivação da Agenda 21 Local, a Educação é uma prioridade. E, ao ser entendida dessa forma por todos os demais segmentos da sociedade, torna-se forte, ousada, parceira, e transformadora do contexto ambiental.

Aos atores do cenário educacional, professores, técnicos, educadores e pedagogos, cabe incentivar um ensino que leve os alunos a observarem sua realidade local, diagnosticar as situações-problema do seu meio e levá-los a não se acomodar, a agirem contra o descaso, a implementarem ações que gerem soluções efetivas. Cada um deverá ser capaz de transformar a sua realidade vencendo os obstáculos, libertando–se da omissão e da exploração e da ignorância comandadas por interesses dominantes.

A educação tem por missão clarear e fortalecer o pensamento do indivíduo, para que esse não seja mais um “cego social”, omisso e sem percepção da realidade que o cerca, promovendo nos bancos das escolas, no “chão da sala de aula”, discussões de temas atuais e a busca conjunta entre educandos e educadores por soluções que promovam “ações concretas” locais no intuito de sanar os problemas diagnosticados ao seu redor.

A “leitura do mundo” continua válida como estratégia pedagógica de uma educação libertadora na qual ler o mundo é condição necessária para a sua transformação. Nessa perspectiva, a Pedagogia abre espaço para uma atuação comprometida com a sustentabilidade, impondo, assim, a necessidade de se dar mais atenção às questões ambientais locais e globais, conduzindo-as aos conteúdos trabalhados diariamente na sala de aula.

Torna-se imprescindível a construção de um projeto político-pedagógico que se preocupe com os desafios do século, em especial os de âmbito ambiental.

Segundo Leonardo Boff, ex-frade franciscano estudioso da ecologia social e um dos responsáveis pela redação da Carta da Terra, “as ações ecológicas estão sustentadas por quatro grandes pilares. O primeiro pilar é: Respeitar e cuidar da comunidade de vida, ou seja do meio ambiente em sentido amplo. O segundo: Manter a integridade ecológica, no que diz respeito à manutenção da sua riqueza, beleza e diversidade. A terceira grande pilastra: justiça social e econômica, uma vez que a existência dessas desigualdades afeta ao ser mais complexo da natureza que é o ser humano. Toda injustiça social provoca uma injustiça ecológica contra o ser humano. E por último: a democracia, não violência e paz. Pensar ecologia de forma ampla, abrangendo não só em termos de democracia dos seres humanos, mas de todos os seres vivos.

Os pilares ou princípios encarnam o conceito da sustentabilidade, impondo aos seres humanos a necessidade de relações de consumo que amparem a cooperação, e não a competitividade ambiciosa, os valores éticos, a paz e harmonia ecológica. Evitando a relação de violência, de não alteridade, de não respeito, estaremos introduzindo o cuidado, que é uma relação amorosa para a vida, é não agressiva, é abrir-se generosamente ao outro, acolher e respeitá-lo na sua diferença.

A “pedagogia do cuidado”, como conceitua Boff, é o preservar, o cuidar para a vida, para os ecossistemas, nas relações entre as pessoas. O cuidado supera as classes, inclui todos numa perspectiva de igualdade. É a pré-condição que garante que as coisas dêem certo. Tudo aquilo que se cuida dura muito mais e é revertido em benefícios para todos. A educação é capaz de ressignificar o conceito de sustentabilidade, ultrapassando o sentido econômico de garantir o sustento, mas de garantir a existência da vida humana e da diversidade dos seres vivos. Perpetuando assim a integridade, a beleza natural, e a capacidade de regeneração de todas as espécies, porque a Terra, como diz o teólogo e ambientalista Leonardo Boff, (…) está cheia de chagas. É preciso fazer com que ela crie condições, que os desertos voltem a ser férteis, que as florestas, matas ciliares junto aos rios, que foram derrubadas, possam voltar a manter a umidade e a alimentar as nascentes.

O papel da escola ideal é divulgar a potencialidade e o poder que cada um tem, expandindo as idéias nascidas após as discussões em salas de aula, em fóruns e seminários nas escolas e comunidades, criando alternativas que possam ser multiplicadas para a comunidade e fortalecidas por setores públicos e privados da sociedade.

Concluindo, a escola é fundamental como instrumento para disseminar as idéias que estão na Carta da Terra em dois momentos: primeiro, num momento de uma nova consciência, aprendendo os dados sobre a situação da Terra, sobre a natureza, sobre a biodiversidade e sobre a nossa responsabilidade desde pequeninos até o resto da vida sobre a casa comum que é o planeta Terra, as águas, os ecossistemas, os animais, as plantas. E em segundo lugar, a escola deve se articular com a própria natureza diretamente, organizando que os estudantes tenham contato com as plantas, com os animais, conheçam a história e a inter-relação entre todos eles e finalmente sintam o ambiente não como uma coisa exterior, mas como uma coisa que pertence à vida humana.

Nós fazemos parte do ambiente, do Planeta Terra, por isso, precisamos divulgar e informar ao mundo que o destino da natureza será o nosso destino. A partir daí nasce uma consciência de responsabilidade, uma ética do cuidado para que todas as coisas que estão doentes, em perigo de extinção, tenham possibilidade de se revitalizar e as que estão sadias possam evoluir junto conosco, e gerar o desenvolvimento sustentável tão discutido e almejado nos dias de hoje.

Em consonância com as ações priorizadas na “Agenda 21”, torna-se importante e essencial a construção da “Agenda 21 Local”, de forma participativa e democrática, acolhendo as idéias centrais e gerais de todos os segmentos. As ações propostas para a área da educação exprimem intenções gerais que deverão ser analisadas, adaptadas e desmembradas em diversas outras ações de acordo com a realidade e prioridades locais diagnosticadas.

Ações recomendadas na área da Educação:

1. Divulgar o documento Agenda 21 nas escolas, da Educação Infantil ao Ensino Superior, apresentando o documento e seus respectivos capítulos, com histórico, finalidade e importância para o futuro do Planeta Terra, de forma estimulante e adequada a cada faixa etária, utilizando recursos e estratégias diversas.

2. Criação de grupos de estudo para a leitura e aprendizagem dos conceitos presentes em cada um dos capítulos da agenda, enfatizando a importância do capítulo 36 para a educação.

3. Planejar e montar oficinas pedagógicas com toda a comunidade escolar, tendo como finalidade a informação, reflexão e planejamento de práticas e ações efetivas para solução de problemas locais diagnosticados.

4. Articular e criar fóruns de agenda 21 nas escolas, com o objetivo de discutir diretrizes para uma educação sintonizada com os conceitos chaves da agenda: Desenvolvimento sustentável, eqüidade social e meio ambiente seguro e saudável.

5. Instituir a Agenda 21 da escola e do bairro, buscando enfrentar em cada unidade escolar seus múltiplos problemas, concentrando a energia coletiva em favor de mudanças que melhorem as condições de trabalho, vida e ensino.

6. Viabilizar através da área de educação, a implementação de projetos culturais, econômicos, ambientais, e de saúde que promovam iniciativas positivas de preservação do meio ambiente e, em conseqüência, do próprio ser humano no Planeta Terra.

7. Solicitar dos Conselhos Municipais de Educação, Assistência Social, da Criança e do Adolescente e outros, propostas de ações que promovam o desenvolvimento ambiental sustentável.

8. Estimular todos os segmentos da sociedade a participarem e serem parceiros em ações voluntárias que visem a contribuir para a conservação da vida.

9. Levar para dentro das escolas o apoio e o envolvimento das ONGs, do setor empresarial, das iniciativas de entidades religiosas e lideranças comunitárias, para juntos atuarem localmente sob a realidade ambiental diagnosticada.

10. Realizar trabalho de mobilização em torno da educação formal e informal nas comunidades, para estimular o interesse pelo aprendizado e a importância do desenvolvimento sustentável.

11. Promover cursos de capacitação de profissionais da área da educação para agirem como agentes ambientais.

12. Consolidar um balanço das experiências de educação ambiental e desenvolvimento sustentável nas escolas de Muriaé e avaliar os seus resultados, com o apoio da mídia.

13. Realizar projetos de educação ambiental e de capacitação para viabilização das ações propostas na Agenda 21.

14. Incentivar nos jovens e idosos o gosto pelo serviço civil voluntário, pelas ações comunitárias, operações de socorro e conservação da natureza, estimulando ações de tipo cooperativo.

15. Construir nas escolas Planos Integrados de Ação para o Desenvolvimento Sustentável no município, a partir da própria realidade.

16. Implementar o sistema de ensino em tempo integral em parceria com setores privados, promovendo atividades que combatam o analfabetismo funcional e a desinformação ambiental.

17. Transformar a escola em centro de excelência e cidadania, e ponto de pesquisa da realidade ambiental da cidade, integrando-a ao bairro e à cidade.

18. Mobilizar as Faculdades locais a organizarem palestras, seminários, fóruns e divulgarem os resultados dos mesmos as comunidades escolares.

19. Incentivar a participação de pais de alunos na gerência de projetos ambientais da escola, e da preservação dos recursos naturais locais, para melhoria da qualidade de vida de todos os seres vivos.

20. Desburocratizar a participação da comunidade escolar e voluntários da sociedade em projetos ambientais nas escolas.

21. Fortalecer o papel protagonista da mulher na sociedade, incorporando seus valores ancestrais de respeito à natureza, à paz e à coesão social e estimular a igualdade de gênero.

22. Valorizar a história da cultura indígena e negra, na preservação e conservação dos recursos naturais.

23. Conhecer o uso sustentável dos recursos naturais, protegendo-os da destruição provocada pela biopirataria.

24. Promover nos espaços universitários, centros de referência, pesquisa e desenvolvimento, voltados para a capacitação em desenvolvimento sustentável, estimulando seus vínculos com os projetos de desenvolvimento regional, de combate à pobreza, de fortalecimento da identidade cultural e de implantação de projetos de interesse local.

* Professora da rede pública municipal de Muriaé – Zona da Mata Mineira, graduada em Filosofia e especialista em Psicopedagogia pela FAFISM.

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