Seca da taquara: Ciclo de vida e renovação das florestas de Araucária

Pedro Pizzatto (*)

Ainda jovem na atividade ambiental, dediquei meu tempo a atividades como o Projeto de Recifes Artificiais Marinhos, desenvolvido pelo Instituto Ecoplan, onde, além de atividades de pesquisa, completei a certificação em doze cursos de mergulho técnico, inclusive na estação de mergulhadores da Marinha no Rio de Janeiro, demonstrando ênfase na vocação para os oceanos.

Mas, visitando áreas florestais no sul do Paraná, percebi a existência do fenômeno da semeadura variável da Bambusa taquara, ciclo em que a taquara apresenta variação no tempo da produção de semente e reprodução vegetativa. Buscando posteriormente maiores informações sobre este acontecimento, descobri a quase inexistência de materiais, estudos e pesquisas relacionadas a este tema.

Por esta razão, creio ser minha obrigação registrar e alertar para o fenômeno da seca da taquara e, como estamos quase no fim deste ciclo, este artigo visa despertar as autoridades ambientais, pesquisadores e ONGs, de que não poderíamos e não podemos perder um processo que está intimamente ligado à existência das florestas de Araucária, onde a preocupação em proibir, denunciar e criar uma anti-consciência mobiliza e centraliza o foco das atenções, em detrimento da conscientização e convívio com sua complexa existência.

A taquara (Bambusa taquara) denominação comum a várias espécies da familia das gramineaes, natural da América do Sul, a maioria com caule oco e segmentado em gomos cuja interseções se prendem folhas (OHRNBERGER, 1999), compõe o estrato inferior da quase totalidade dos maciços naturais da floresta de Araucaria angustifólia, o Piheiro do Paraná, estando presente em toda a floresta Ombrófila Mista e Densa, com maior densidade nas regiões Sul do Paraná e Norte de Santa Catarina, como consta de registros históricos.

Sua existência, por dificultar a iluminação na fase juvenil da regeneração das sementes de Araucária (pinhões), faz com que as florestas naturais sejam compostas por manchas de árvores adultas, com idades muito próximas, mas com pouca ou nenhuma existência de espécimes jovens, salvo em áreas que sofrem manejo, áreas limpas, beira de estradas ou em melhores condições de iluminação, a exemplo das ocasionadas por incêndios florestais.

Como o processo da natureza vive em uma simbiose permanente, as taquaras secam ao mesmo tempo, em grandes manchas ou regiões, em períodos de 30 a 35 anos (a última foi entre 1969 e 1970, e a atual vem de 2004 e deve terminar em 2006), acamando todo o material seco, formando verdadeiros colchões deste produto (ver foto abaixo).

Este material é altamente combustível e, por causas naturais ou não, pode gerar grandes incêndios, permitindo maior regeneração das Araucárias, o que pode justificar a existência dos maciços em idades dicetaneas, mas em grupos equianeos em ciclos de 30/40, 60/80 anos e assim por diante.

A foto acima, da área que era o Parque Estadual das Araucárias no Paraná, descriado e devolvido por desinteresse do Estado e, para alguns, por não haver araucárias (!), é exemplo clássico da interação entre taquaras, seca e incêndios, constituindo-se de uma floresta com indivíduos situados em faixas de idade de 300 anos a 100 anos, e indivíduos jovens apenas onde a área foi manejada com a limpeza da taquara (atividade feita nos últimos 20 anos em áreas especificas de manejo, pesquisa e adensamento).

A seca da taquara ocorre logo após a única frutificação da espécie, os frutos parecem com as sementes do trigo e do arroz , e as sementes apresentam-se em forma de grãos redondos e muito pequenos

Esta quantidade imensa de sementes é alimento de muitos roedores, a população de ratos silvestres e mais especificamente do rato-da taquara, Kannabateomys amblyonyx, um grande roedor e pode chegar a pesar 600 gramas (um comedor de brotos de árvores, que se alimenta principalmente de brotos, galhos e folhas de bambu). Foi observado que se alimenta principalmente de bambus a mais de 2 metros acima do nível do solo (OLMOS, 1993) e, com a seca da taquara, aumenta sua população gradativamente, gerando uma explosão demográfica até ter alcançado seu ápice nos meses de julho a novembro (2005) onde houve a maior quantidade de sementes disponíveis, criando o fenômeno da “ratada”.

Embora a semeadura variável da taquara pareça ser um fator passível de desencadear ratadas, muitas semeaduras variáveis não produzem essas explosões populacionais, o que sugere que outros fatores também são importantes (JAKSIC e LIMA, 2003).

São milhares, milhões de ratos, que correm pelos campos, estradas, invadem casas, paióis, etc, a procura de alimento pois a abundância inicial das sementes de taquara não mais existe e a população de ratos silvestres entra em colapso, stress, morte e retorno à população original. Após a diminuição dos estoques de sementes, foi registrado que, devido aos altos números populacionais de roedores em busca de alimento, que já não existem mais em quantidade suficiente, passam a causar danos em residências rurais, plantios de monoculturas e outros, roendo inclusive encanamentos e outras estruturas à base de plásticos (PVC) e até alumínio.

Na região Sul do Paraná e Norte de Santa Catarina, foram registrados vários ataques a plantios novos de Pinus spp., nos meses de julho de 2005 a janeiro de 2006, com perdas superiores a 90% das mudas plantadas.

Sem dúvida, um dos fenômenos integrando aspectos de fauna e flora únicos e da maior importância, e com muito pouco interesse e estudos publicados.

Além da biologia, a saúde pública deve entrar em alerta, já que os ratos silvestres são vetores de grave doença para os seres humanos, a hantavirose, que, em epidemia anteriores, já matou mais de 50 pessoas, como entre 2000 e 2003, só na região sul do Paraná.

Quanto à interação do fogo e as Araucárias, o fomento à limpeza da taquara e o planrtio de mudas de araucária e de espécies acompanhantes como a erva-mate não poderia perder este momento único. Tal ação, além de não contar com campanhas e o esforço público e de movimentos sociais, também esbarra na imagem que infelizmente se disseminou no meio rural de que a araucária é uma “árvore maldita”.

Difícil acreditar nesta situação, mas, na mente simples do produtor rural, todos os cuidados e poupança que ele fez protegendo as Araucárias renderam um anti-prêmio por ter protegido: agora não pode usar esta espécie, pois onde existe uma araucária existem restrições. Nenhuma mudinha sobrevive e é rapidamente arrancada, antes que transforme a área como proibida de uso. Um tema complicado, mostrando que a simples proibição de uso da espécie surte o efeito contrário.

Mesmo assim, ainda é tempo de aproveitarmos os ensinamentos da seca da taquara e da ratada, apoiar os poucos estudos, manter um banco de sementes – das poucas que ainda existem -, levantar o máximo de dados possível, para agirmos de maneira eficiente daqui a 30 anos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Ohrnberger D. (1999) The Bamboos of the World.
Elsevier, Amsterdam

Olmos F, Galetti M, Pashoal M, Mendes SL (1993) Habits of the southern Bamboo Rat,
Kannabateomys amblyonyx (Rodentia, Echimyidae) in Southeastern Brazil.
Mammalia 57: 325-333

Jaksic FM, Lima M (2003) Myths and facts about ratadas: bamboo blooms, rainfall peaks and rodent outbreaks in South America. Austral Ecology 28: 237-251

* É estudante de Biologia da UNICENP, especialista em Mergulho e Avaliações Ambientais em oceanos e ambientes aquáticos, executando ainda documentários e fotografia técnica de fauna e flora.

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