A “única via” possível na Terra

Fernando Negret (*), Ana Cláudia Negret (**) e Juan Felipe Negret (***)

“A morte anunciada” do planeta não vai acontecer, já está acontecendo. No contexto desse processo catastrófico em curso, não deveria existir muito espaço para discutir “tipos de vias para o futuro da humanidade”, pois existe uma só via possível: a sustentabilidade eco-social ou sócio-ambiental de todos na Terra.

Duas recentes catástrofes eco-sociais, o tsunami nos litorais pobres da Ásia e os furações que atingiram a bela e surpreendentemente também pobre New Orleans, no país mais rico, depredador e consumista da Terra são fatos evidentes desse processo já irreversível. Igualmente, fazem parte desse processo de morte a perda permanente da biodiversidade e dos recursos genéticos ocasionada pela derrubada das florestas naturais, a perda dos solos férteis, a contaminação dos rios, dos mares e do ar, bem como tantos outros processos e fenômenos de destruição das diversas formas de vida na Terra.

Tudo isso já foi dito e escrito muitas vezes e de diferentes formas, muitas chamadas e clamores têm sido feitos e muitos manifestos têm sido lançados em todos os cantos da Terra, entretanto ainda não se consegue deter esse processo de produção e consumo dos recursos naturais que fatalmente está destruindo o planeta. Talvez muito já foi escrito sobre “o que fazer?”, entretanto sobre “como fazer?” e “com quem fazer?”, que são perguntas elementares, ainda não temos respostas satisfatórias.

Zigmunt Bauman (2000) afirma que sabemos o que devemos fazer, entretanto não sabemos como e com quem fazê-lo. O autor refere-se, numa perspectiva política mais ampla, à dificuldade de atuar num mundo globalizado em mãos de poderosas corporações que geraram seres individualistas e solitários, no qual o “triplo veneno da insegurança, da incerteza e da instabilidade” não permite estruturar processos socialmente organizados e unificados para lutar contra a pobreza e a desigualdade social. Pode-se agregar que o mesmo acontece na luta para preservar as condições ambientais de vida. No dizer de Bauman, o mundo de hoje é produto do neoliberalismo, “da economia política da incerteza” ou seja, “pôr regras para pôr fim a todas as regras”. Essa é evidentemente a finalidade e o problema essencial do neoliberalismo, ter a liberdade absoluta de explorar o ser humano e de depredar, produzir e consumir os recursos naturais sem controle nem racionalidade social.

Já Michael Löwy no seu trabalho Ecologia e Socialismo (2005) e numa perspectiva mais eco-social ou sócio-ambiental, também necessariamente política, explica que o “ecossocialismo” é uma corrente de pensamento e ação ecológica que se desenvolveu nos últimos 30 anos com os aportes de diversos autores de linhas políticas não homogêneas. Caracteriza-se fundamentalmente por uma posição crítica ao produtivismo, tanto aquele da lógica do mercado e do lucro capitalista, bem como do autoritarismo burocrático vivido nos países do “socialismo real”. Para o autor, o produtivismo nos dois casos é incompatível com as exigências de preservação do meio ambiente natural.

No seu trabalho, Löwy cita a James O’Connor, um dos mais importantes representantes desta corrente de pensamento, e quem define como ecossocialistas ”as teorias e movimentos que aspiram a subordinar o valor de troca ao valor de uso, organizando a produção em função das necessidades sociais e das exigências da proteção do meio ambiente. O seu objetivo, um socialismo ecológico, seria uma sociedade ecologicamente racional fundada no controle democrático, na igualdade social, e na predominância do valor de uso”. A esta definição, Löwy agrega que “tal sociedade supõe a propriedade coletiva dos meios de produção, um planejamento democrático que permita a sociedade definir os objetivos da produção e dos investimentos, e uma nova estrutura tecnológica das forças produtivas”.

Como pode ser verificado, os dois autores propõem um planejamento global da produção e consumo de modo que toda a sociedade participe de seus benefícios, que faça parte do controle e fiscalização dos recursos ambientais de propriedade coletiva e em que se privilegie o valor de uso dos produtos para o bem-estar social e não seu valor de troca para o lucro individual. É por isso que se afirma que o combate para salvar o meio ambiente e pela conservação dos recursos naturais é necessariamente o combate por uma mudança radical de civilização.

Löwy assinala que o “raciocínio ecossocialista”, se sustenta em dois argumentos essenciais: 1) “O modo de produção e consumo atual dos países capitalistas avançados, fundado numa lógica de acumulação ilimitada (do capital, dos lucros, das mercadorias) de esgotamento dos recursos, de consumo ostentatório, e da destruição acelerada do meio ambiente, não pode, de modo algum, ser expandido para o conjunto do planeta, sob pena de uma crise ecológica maior”. O autor agrega que generalizar para o conjunto da população mundial o consumo médio de energia dos Estados Unidos, significa que as reservas conhecidas de petróleo seriam esgotadas em dezenove dias. 2) A expansão da civilização fundada na economia de mercado – mesmo sob a atual forma brutalmente desigual – ameaça a própria sobrevivência da espécie humana. A preservação do meio natural é, portanto, imperativo essencial da vida de todos.

Esses dois argumentos da corrente de pensamento que se pode denominar como a “Via Ecossocialista” são incontestáveis perante tantas evidências e catástrofes sócio-ambientais. Nesse sentido o próprio Löwy assinala que “é preciso substituir a microrracionalidade do lucro por uma macrorracionalidade social e ecológica, o que exige uma verdadeira mudança de civilização. Isso é impossível sem uma profunda reorientação tecnológica, que vise a substituição das atuais fontes de energia por outras, não poluentes e renováveis, tais como a energia eólica ou solar”. Pode-se agregar que também a bio-energia é uma alternativa em construção e o Brasil um dos atores principais desse processo.

Entretanto, todas essas e outras iniciativas sobre o que fazer, não poderão ser implementadas enquanto não se criem as condições para torná-las realidade. Ainda as perguntas de como fazer e com quem fazer não estão respondidas e esse é o grande desafio. A seguir se formulam algumas outras perguntas e se assinalam certas linhas de trabalho hoje em discussão:

Como mudar os valores coletivos que motivam o consumo de ostentação como uma forma de realização pessoal e ocasionam a depredação dos recursos naturais e o desperdício? Como deter a idéia do carro individual como meio de prestígio e centro da vida dos indivíduos? Como lutar contra as grandes corporações produtoras de bens de consumo se a mídia lhes pertence e promovem cotidianamente a compra de novos modelos de seus produtos e serviços? Como fazer entender e fazer assumir que o consumo dos bens supérfluos realizado principalmente pelos ricos os torna ambientalmente mais caros, destruidores e responsáveis pela contaminação e depredação que os pobres? Como construir uma consciência coletiva capaz de gerar um movimento global planetário a favor do meio ambiente como um patrimônio para a vida de todos?

Não são perguntas de fácil resposta. Entretanto e sem desconhecer a prioridade das justas reivindicações das populações pobres para melhorar as suas condições de vida e, a pesar da flexibilização das relações trabalhistas que impedem a organização dos trabalhadores, da incerteza no trabalho e no futuro, da individualização das sociedades, da produção robotizada sem controle social, etc, há propostas de interesse em discussão que podem ser assumidas como bandeiras de luta de partidos e de organizações sociais progressistas e ambientalistas:

1 – Em primeiro lugar, cabe assumir ao Estado, aos partidos políticos e às organizações sociais a iniciativa de projetos e ações para deter o consumo predatório e recusar o desperdício. As políticas públicas devem ser o mecanismo fundamental de disseminação de idéias e premissas na construção de novos valores, ressaltando o “Ser” sobre o “Ter”. Algumas eco-taxas ou eco-impostos devem ser criados, observando uma lógica social igualitária, de forma que paguem os predadores e poluidores e não toda a população.

2 – Educar a sociedade para ampliar o tempo de uso de todos os bens com o fim de diminuir o consumo de novos produtos. Haverá que assumir sem preconceitos o uso da roupa fora da moda, conviver mais tempo com os moveis e utensílios domésticos usados e cuidar mais o carro para que dure mais tempo sem contaminar o meio ambiente, etc. Tudo isso são formas de diminuir o consumo dos recursos naturais e da degradação ambiental da Terra.

3 – Fortalecer a educação ambiental formal e não formal apoiada com os recursos das eco-taxas, considerando que uma estratégia importante é educar as crianças nas suas escolas para conscientizar através delas a toda família e a sociedade na proteção do meio ambiente e contra o consumo supérfluo. Igualmente, as populações urbanas deverão educar-se para reduzir o consumo e diminuir o impacto no meio ambiente e as populações tradicionais do campo e das florestas devem ser capacitadas e fortalecidas ampliando seus conhecimentos sobre o manejo dos recursos naturais.

4 – Lutar a favor de sistemas de transporte coletivos eficientes, com preços acessíveis e não contaminadores como alternativa ao carro individual. Essa iniciativa é uma forma de diminuir o consumo de petróleo e de matérias primas, de descongestionar o espaço público e as vias e de despoluir as cidades.

5 – Evitar o deslocamento obrigatório de todos os trabalhadores quando suas atividades e trabalhos podem ser desenvolvidos nas suas residências. É uma forma de racionalizar o uso do espaço construído e de evitar congestionamentos nas estradas e nas vias das cidades, nas instituições públicas e nos estabelecimentos, além de diminuir o consumo de combustíveis e sua contaminação.

6 – Fortalecer a pesquisa aplicada na busca de novas tecnologias para elevar a potencialidade sustentável dos recursos naturais, de forma a acrescentar o valor agregado dos produtos, diminuir a dependência da exportação de matérias primas e evitar a expansão da fronteira agrícola sobre as áreas de florestas nativas.

7 – Manejar mais intensivamente as áreas com potencial agrícola e reflorestar com espécies madeireiras de alto rendimento aquelas áreas recentemente desmatadas. Assim se pode diminuir a pressão sobre as florestas primarias e preservá-las enquanto a pesquisa avança na identificação do manejo sustentável da biodiversidade e dos recursos genéticos.

8 – Dinamizar as políticas de criação e implementação de Unidades de Conservação, de proteção integral e de uso sustentável, como a única forma de garantir a permanência das áreas prioritárias para proteção em virtude da sua biodiversidade e dos recursos genéticos.

9 – Avançar decididamente na pesquisa, no fortalecimento e no uso de fontes de energia alternativas sustentáveis, como a eólica, a solar e os bio-combustíveis, de forma a diminuir o uso de energias contaminantes e os impactos sobre os recursos naturais, incluindo a construção de hidroelétricas.

Todas essas iniciativas, entre outras, constituem hoje uma premente necessidade para evitar que a catástrofe em processo aconteça ainda mais rápido. Na realidade, para atenuar a destruição das condições ambientais e contribuir para a sustentabilidade da vida na Terra essas e outras medidas são a “Única Via Possível”.

* Consultor Meio Ambiente PNUD – MMA

** Bióloga

*** Educador Ambiental

*Bauman, Zygmunt. EM BUSCA DA POLÍTICA. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro. 2000.

*Löwy, Michael. ECOLOGIA E SOCIALISMO. Questões de Nossa Época. Cortez Editora. São Paulo. 2005

* O’Connor, James. NATURAL CAUSES. ESSAYS IN ECOLOGICAL MARXISM. Nova York. The Guilford Press. 1998.

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