Sobre Homens e Pombos

João Luis de Freitas Valle (*)

Ultimamente ando analisando as causas do enorme aumento populacional dos pombos no meu bairro.

Há cinco anos só existiam pássaros nativos nas redondezas da minha residência. Víamos pombos somente quando íamos ao centro de São Paulo. Porém, um belo dia, apareceram alguns pombos que, de forma silenciosa e inexorável, se transformaram na maior população de aves do bairro, constituindo um grande transtorno para todos os moradores.

Como os pombos conseguiram reproduzir-se tão rápido? Como conseguiram sobreviver, dado que não existia nenhuma fonte específica de alimentação?

Estas perguntas começaram a atormentar, até que, olhando um pombo comendo a ração do meu cachorro, percebi que a resposta literalmente estava na minha frente! Eles sobrevivem porque comem de tudo – de ração canina a restos de lixo. Ou seja, sua extrema flexibilidade alimentar, combinada a uma grande taxa de reprodução, faz com que os pombos provavelmente sejam hoje em dia uma das grandes pragas mundiais, junto com os ratos, baratas…

…e seres humanos ! Isso mesmo, com 6.649.059.191 (no segundo que escrevo esse artigo segundo o site http://www.ibiblio.org/lunarbin/worldpop), nós já podemos ser considerados praga.

Diferentemente dos pombos, porém, não só comemos todo tipo de alimento, como utilizamos e transformamos virtualmente todo e qualquer insumo encontrado na natureza, a fim de satisfazer as nossas necessidades, sendo estas básicas ou não.

A população humana cresceu mais de 650% desde o início do século 19, fato sem precedentes na história. Porém, o mais incrível é que o primeiro bilhão foi atingido somente por volta de 1800! Ou seja, levamos em torno de 400.000 anos (data estimada para o aparecimento do Homo Sapiens) para atingirmos 1 bilhão de indivíduos. Porém, somente 200 para sextuplicar este número. A previsão é que por volta do ano de 2050 a população cresça 50%, indo para 9 bilhões de pessoas.

O crescimento da população desta magnitude já seria por si só motivo mais que suficiente de preocupação. Porém, e esta é a verdadeira tragédia, os seres humanos estão consumindo mais recursos per capita. Ou seja, o nível de consumo pessoal aumentou à medida que a economia globalizou-se, fazendo com que países como China, Índia, Brasil e México dinamizassem suas economias, atingindo níveis recordes de consumo de recursos naturais seus e de terceiros.

Entre os anos de 1960 e 2002/2004, a produção agrícola per capita aumentou 33%. O consumo per capita de carne e papel aumentou respectivamente 90% e 108%. E o consumo individual de calorias passou de pouco mais de 2200 para 2800 calorias diárias. Estes são apenas alguns exemplos dentro da enorme gama de produtos que consumimos direta ou indiretamente todos os dias. De forma geral o consumo per capita deu um salto nos últimos quarenta anos.

O resultado disso é que o ser humano na média está vivendo melhor. Na verdade nunca o ser humano viveu tão bem como atualmente. Nunca existiram tantos bens disponíveis a tantas pessoas ao mesmo tempo. O número de computadores pessoais que passou de 10,5 % das residências em 1990 a incríveis 47,6 % em 2004. Ou o número de celulares que eram somente 23.000 em 1980 e hoje somam quase 2 bilhões de aparelhos. Pelos indicadores de saúde pública, as taxas de mortalidade estão em seu menor nível histórico (21/1000 em 2003), bem como a expectativa de vida, que nunca esteve maior (65.4 anos no intervalo 2000-2005).

Porém, este movimento de melhoria de nosso padrão de vida fez com que sextuplicássemos o número de habitantes nos últimos duzentos anos, poluindo rios e mares e devastando o nosso meio ambiente, a ponto de pormos a Terra em estado de colapso. Não quero dizer com isso que devemos voltar a utilizar charretes e lampiões. O que afirmo é não dá para mantermos o nível de consumo de recursos que temos atualmente com 6, 7 ou 8 bilhões de pessoas. Cedo ou tarde teremos que fazer a difícil escolha entre diminuir a população ou nosso padrão de vida, com tudo que isto representa.

Contudo, existe ainda outro fator agravante. Este consumo desenfreado não está sendo igualmente distribuído entre os países. O nível e a qualidade do consumo dos países de primeiro mundo são muito, muito maiores do que os países em desenvolvimento.

Países como os Estados Unidos, Europa, Japão e China consomem muito mais recursos do que possuem, tendo que por isso importar tais recursos de outros países. Estados Unidos e Europa consomem 65% dos combustíveis fósseis, e 47% de todo gás natural produzido no mundo. As emissões de Co2 nos países desenvolvidos atualmente são de 11 toneladas por pessoa – em contraste as dos países em desenvolvimento, de somente 1,8 toneladas per capita.

Estes fatos nos mostram duas histórias. A primeira é que está ocorrendo atualmente uma das maiores, senão a maior injustiça de todos os tempos, onde um pequeno grupo de países está usurpando o direito dos demais a um mundo limpo, preservado e despoluído. A segunda é que este excesso de consumo bloqueará o acesso dos países em desenvolvimento ao primeiro mundo.

E isto é algo único na história. Sempre existiram os atores principais e coadjuvantes na história mundial. Porém quem não era ou estava plenamente desenvolvido tinha a esperança de algum dia sê-lo, pois tinha pelo menos uma poupança, seus recursos naturais, para isso. Agora a coisa está mudando de figura. Paises pobres estão espoliando seus recursos naturais de forma a garantir a própria sobrevivência e o privilégio de consumo dos países desenvolvidos. Com isso, eles estão cavando a própria cova, pois em pouco tempo não terão como fomentar o próprio crescimento.

Uma lição preciosa vem do passado, onde civilizações também entraram em colapso. Segundo o fisiólogo Jared Diamond em seu livro “Colapso”, todos estes países seguiram a mesma cartilha para destruição: consumo e esgotamento de recursos, crescimento populacional, devastação (não só ambiental mas em todas as suas formas, como guerras, convulsões sociais, migrações maciças, etc…) e extinção.

Países outrora desenvolvidos como os maias, os habitantes da ilha de Páscoa, os groelandenses, entre outros povos, virtualmente sucumbiram à falta de recursos. Neste nível, denominado colapso, sua população atingiu um nível máximo e o nível de recursos, o mínimo. Neste cenário, houve em todos os casos, principalmente entre os groelandenses, o colapso total e a extinção de todos os habitantes da sociedade.

Porém, existiram casos de sociedades que conseguiram achar uma solução para o binômio consumo de recursos versus aumento de população. A ilha de Tikopia, uma ilhota no Pacífico completamente isolada, conseguiu nos últimos três mil anos sustentar uma sociedade de 1200 pessoas sem destruir a natureza. A chave para isto foi uma administração eficaz de recursos e principalmente o controle (às vezes de forma cruel) da natalidade. Outros casos de sustentabilidade ambiental e social foram os povos das terras altas da Nova Guiné e o Japão.

O que estes fatos nos dizem é que existem soluções factíveis para evitarmos um colapso mundial. E os exemplos não estão somente em sociedades tradicionais e nem são exceções. Países com altos índices de desenvolvimento humano conseguem dar uma alta qualidade de vida a sua população, sem o consumo estratosférico de recursos.

Se analisarmos os cinco países com maior índice de desenvolvimento humano em 2003 (Noruega, Islândia, Austrália, Luxemburgo e Canadá) veremos que todos têm fatores em comum:

  • Estrutura de estado e serviços públicos compatível com o número de habitantes
  • Baixa concentração de renda.
  • Alto nível sócio econômico da população que se traduz em um alto nível de bem estar per capita.
  • A economia do país é baseada em uma gama de produtos com alto valor agregado, como bens manufaturados, serviços e alta tecnologia.
  • Normalmente estes países possuem um alto volume de importação de produtos básicos, matérias primas e alimentos

Porém, o segredo mais importante: “Balanceamento”. Estes países conseguiram efetuar o equilíbrio entre a oferta de bens e serviços e o número de pessoas que usufruem deles. Normalmente não têm a maior economia e nem são os maiores consumidores de recursos. O foco principal destes paises é o bem estar de toda a sua população. Provavelmente se o Canadá adotasse 100% do modelo consumista dos EUA, ele com certeza não estaria com o quinto melhor IDH.

Portanto, qual a solução mágica? Como poderemos tirar o coelho da sustentabilidade da cartola, respeitando as características e o grau de desenvolvimento de cada país?

Para definirmos uma solução, primeiro temos que entender qual é o problema. Na verdade, os danos ambientais atuais são causados por dois fatores relacionados ente si: o número total do habitantes e o consumo crescente de recursos que estes promovem.

Portanto, a melhor solução sob meu ponto de vista será reduzir o consumo de recursos através da redução da população. Ou seja, se conseguirmos achar uma forma de equilibrar a população atual e seu consumo de recursos, conseguiremos não só desacelerar, como possivelmente reverter o processo de devastação atual.

Um dos mecanismos pelos quais poderemos fazer isso será efetuando o controle populacional de forma ponderada. Isto é, reduzir o número de pessoas levando em conta o grau de consumo real daquela população. Desta forma, se fizermos um planejamento populacional contando com uma redução global de 10%, ponderaremos este percentual de forma que países que consumam mais recursos tenham uma redução populacional proporcionalmente maior.

A grande força desta solução é que ela inibirá o consumo nos países desenvolvidos através da redução da população e a exploração de recursos nos países em desenvolvimento através da redução de demanda. Além disso, esta solução é extremamente flexível e abrangente. Poderá ser aplicada tanto regionalmente (pense no caso da cidade de São Paulo em relação ao estado ou no caso de um bairro em relação à cidade), como globalmente.

Conclusão

Algumas pessoas me falam que caso um plano como este fosse implementado, o mundo mergulharia em recessão durante várias gerações. O que eu costumo responder é que, caso a população e seu consumo não se reduzam, o mundo entrará em colapso para sempre. Ou seja, estamos em uma encruzilhada ambiental. Ou voluntariamente decidimos reduzir cada vez mais nosso padrão de consumo à medida que a população aumenta, ou teremos que reduzir o número de pessoas consumindo. Devemos decidir o que é mais importante. Penso que, por mais utópica que esta proposta soe, será muito mais difícil convencer uma pessoa a ter menos carros, celulares ou alimentos não essenciais do que fazer um programa de redução da população.

Por outro lado, nunca tivemos tantas facilidades para sobrevivermos. É só olhar o estágio da medicina, da tecnologia, da educação e assim por diante. Temos que ter em mente que quase todos os imensos desafios que enfrentamos no decorrer da evolução humana foram sobrepujados. Caso consigamos manter o número de pessoas e o seu consumo sob controle, garantiremos um futuro brilhante para todo o mundo. Literalmente.

* É economista, consultor de empresas, fotógrafo e ecologista atuante, vinculado à ONG Roots & Shoots.
jvalle@sunny16.com.br