-
Mais lidas do dia
- Inundações atingem até 'sertão' da Austrália, e cidades são desocupadas
- Supermercado é obrigado a fornecer sacolas biodegradáveis gratuitamente
- Planeta recém-descoberto é 'melhor candidato a abrigar 'vida' fora da Terra
- Seca de 600 milhões de anos pode ter eliminado vida em Marte
- Ave redescoberta em 2003 já se reproduz na Oceania, dizem cientistas
Anúncios
Principais assuntos
acidente ambiental agropecuário amazônia apreensão arqueologia biodiversidade biotecnologia carbono ciência clima crime cursos e eventos código florestal dengue desenvolvimento sustentável desmatamento energia extinção fauna fenômeno florestal gestão ambiental gripe A gripe aviária internacional legislação licenciamento mudanças climáticas nuclear paleontologia pesquisa poluição protesto protocolo de kyoto qualidade de vida queimadas recursos pesqueiros resíduos tecnologia terremoto transgênicos unidades de conservação velho chico águas índiosListar notícias por data



07 / 11 / 2007A lúgubre loteria se repete: quantos morrerão soterrados ou afogados nas próximas chuvas?
Em março de 2006, AmbienteBrasil publicou artigo meu intitulado Mortes por soterramento: fatalidade ou assassinatos?, com o qual procurei alertar técnicos e sociedade para o fatal descompromisso com que autoridades públicas e privadas lidam com a histórica e trágica recorrência anual de tantas mortes estúpidas e cruéis associadas a escorregamentos de taludes, solapamento de margens de córregos e enchentes.
Mal iniciado o novo período chuvoso, as mortes da nova temporada já começaram a acontecer. Os fenômenos técnicos e sociais que estão na origem desses desastres agravam-se a cada ano, totalmente alheios a qualquer ação mais resolutiva das instâncias públicas envolvidas.
O que será preciso para que essa terrível questão humana ganhe a dimensão de uma tragédia nacional, repercutida pela mídia, e então receba a atenção devida dos poderes públicos e privados? Que as classes média e alta sejam vitimadas, como no recente caso da crise aérea e do acidente com o Airbus da TAM? Possível em casos isolados, mas difícil que as classes socialmente mais favorecidas sejam igualmente vitimadas pelos escorregamentos e enchentes, pois que esses fenômenos estão intimamente vinculados às alternativas hoje utilizadas para a população mais pobre para conseguir moradia própria ou alugada que caiba em seu parco orçamento familiar: distância, periculosidade, insalubridade, desconforto ambiental, precariedade construtiva e irregularidade fundiária.
Essa condição orçamentária leva inexoravelmente a população pobre a três alternativas: favelas, cortiços ou zonas periféricas de expansão urbana. Especialmente nessa última condição, a que, por sinal, abriga o maior contingente populacional, a população de baixa renda tem sido protagonista ativa e passiva da grave tragédia geotécnica que incide generalizadamente em áreas de relevo mais acidentado e margens de córregos, tragédia que põe a perder por erosão, escorregamentos, assoreamento de drenagens e enchentes associadas a já precária infra-estrutura urbana, as próprias habitações, patrimônios públicos e privados e, invariavelmente, vidas humanas.
Essa expansão urbana assenta-se em dois tipos principais de ocupação habitacional: os loteamentos regulares, com projeto aprovado pelas administrações municipais, e as ocupações irregulares (invasões) de terrenos privados e públicos. Ao atingir terrenos geologicamente mais instáveis, ambas as formas de ocupação, loteamentos regulares e invasões em terrenos de alta declividade e margens de córregos, têm se mostrado catastróficas do ponto de vista geotécnico. Nos terrenos ocupados por invasão há a agravante da produção sistemática de áreas de riscos; nas encostas de alta declividade, por escorregamentos, nos fundos de vale e margens de córregos, por solapamento e enchentes.
O aspecto mais cruel dessa tragédia é que, tanto do ponto de vista técnico, como do ponto de vista de políticas habitacionais, todas as ferramentas estão dadas para que os problemas descritos, todos, sejam devidamente equacionados e resolvidos.
Cumpre noticiar e destacar positivamente a atual iniciativa do Governo do Estado de São Paulo com a implementação do Programa de Recuperação Sócio Ambiental da Serra do Mar, conduzido pela Secretaria da Habitação/CDHU e destinado a dotar os famosos e trágicos Bairros Cota (município de Cubatão, às margens da Via Anchieta) de melhores condições urbanísticas e geotécnicas, assim como a estancar definitivamente a expansão desses bairros para os domínios do Parque Estadual da Serra do Mar. É propósito desse ambicioso programa estender seu escopo a todos os municípios litorâneos paulistas em que hoje vem se dando esse mesmo ameaçador fenômeno de expansão urbana em direção às encostas da Serra.
Iniciativas como essa provam que é possível reunir suporte técnico e políticas públicas para um exitoso enfrentamento do problema. Seria auspicioso que esse momento, em que mais mortes inevitavelmente acontecerão, ao menos marcasse definitivamente uma tomada de consciência de toda a sociedade e a decisão das instâncias públicas federais, estaduais e municipais, de alguma forma envolvidas com os processos de expansão urbana e sua regulação técnica, em conceber e implementar programas que reduzam essa tragédia a níveis civilizados.
* É geólogo, autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar” e “Cubatão”; consultor em Geologia de Engenharia e Geotecnia.
santosalvaro@uol.com.br
Leia do mesmo autor:
Uma estratégia de Governo para a Serra do Mar
A incrível odisséia da construção do Aterrado de Cubatão