Jatobá está ameaçado de extinção

O jatobá, uma das árvores mais altas e majestosas da floresta atlântica do Sudeste, está sob dupla ameaça. Além de ainda sofrer com a exploração madeireira, agora é vítima da fragmentação florestal.

O problema é a intervenção do homem na relação entre a renovação natural do jatobá e alguns dos animais, que se alimentam de seus frutos. Uma relação que assegurou a evolução e a sobrevivência das árvores e dos animais até os dias de hoje, mas agora os coloca em risco.

Os efeitos da fragmentação florestal sobre diversas espécies da floresta atlântica e a relação com os animais dispersores de sementes vem sendo estudados desde 1992 pelo Grupo de Pesquisa de Fenologia de Plantas e Dispersão de Sementes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), sob coordenação de Mauro Galetti e financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Os estudos realizados até 1996 no Parque Estadual Intervales, no Vale do Ribeira, mostraram a influência da exploração irracional de palmito sobre os tucanos, jacutingas, jacus, arapongas, papagaios e outras aves, que dependem de seus frutos para sobreviver.

A vegetação da mata atlântica e a fauna silvestre estão cada vez mais ilhados entre cidades, lavouras, estradas e pastagens. Nessas ilhas, ou fragmentos florestais, abaixo de 400 hectares, as antas já sumiram, porque não conseguem abrigo e alimento suficiente para sobreviver. E começam a desaparecer as cotias, porque são excessivamente caçadas, pelo homem ou por cães.

Sem antas nem cotias, não há dispersão das sementes do jatobá. Por isso, a espécie está representada só pelas árvores adultas, sem renovação natural.

Quando estas árvores adultas morrerem ou forem derrubadas, o jatobá estará localmente extinto. “É a segunda onda de extinções locais que o jatobá sofre. A primeira foi entre 10 mil e 15 mil anos atrás, nos locais em que o homem primitivo extinguiu os grandes mamíferos, como preguiça gigante, gliptodontes e mamutes, responsáveis pela dispersão de suas sementes”, comenta Galetti.

Além do jatobá, dependem das cotias espécies de palmeiras, como o palmito juçara e a guaviroba. Ao contrário de um grande número de roedores, que só consome os frutos e sementes nativos, a cotia faz estoques, enterrando as sementes em vários locais. Cerca de 80% das sementes enterradas são recuperadas em épocas de seca. Mas os 20% esquecidos podem germinar e garantir a sobrevivência das árvores.

“As sementes que caem e não são enterradas pela cotia estão mais sujeitas à predação de outros roedores e, mesmo quando germinam, não conseguem competir com a árvore-mãe por luz e nutrientes do solo”, acrescenta Galetti.

A porcentagem de árvores que dependem de animais para dispersão de suas sementes, nos fragmentos de floresta atlântica, pode chegar a 90%. “Não adianta apenas replantar as árvores derrubadas. É necessário conservar também estes animais, que garantem a germinação”, explica o pesquisador. (AE)