Agricultores desafiam a Amazônia e produzem grãos

Depois do intenso fluxo migratório nos anos 80, produtores rurais de todo o Brasil começam a descobrir uma das últimas fronteiras agrícolas do país. Conhecido mais pelo extrativismo da madeira e pela pecuária solidificada na criação extensiva de zebu, o nordeste do Pará desponta como uma região potencial para a plantação de lavouras e a produção de grãos.

De forma ainda tímida, milho, arroz-de-sequeiro e soja surgem no imenso território, marcado pelas chapadas que dão continuidade aos cerrados maranhense no leste, e mato-grossense, mais ao sul. Na porta de entrada para a Selva Amazônica, o desbravamento do novo território também tem sotaque gaúcho.

No trabalho pesado de derrubada da juquira – vegetação que brotou nas áreas desmatadas de floresta – e na assistência técnica, destacam-se à frente agricultores do Rio Grande do Sul. Como Bazílio Wesz Carloto, de Bossoroca, que vive em Paragominas, distante 200 quilômetros da capital Belém, há quatro anos.

Convidado por pecuaristas paraenses para coordenar o projeto de implantação de lavouras de grãos na região, o produtor, que também é agrônomo, aceitou o desafio e foi tentar a sorte no outro lado do Brasil.

Além de prestar assistência técnica às propriedades, adquiriu terras e, neste ano, já vai colher a segunda safra de milho, arroz e soja. Entusiasmado com o potencial agrícola do Estado, Carloto, que foi secretário da Agricultura de Bossoroca, garante que as condições do solo são melhores do que as do Cerrado no Brasil Central, e o clima é excelente.

O problema da escassez de chuva, que atormenta os produtores gaúchos, não existe no Pará. As precipitações ocorrem pontualmente de dezembro a março, exatamente na época de plantio e germinação das plantas. Também não falta terra. Só na região nordeste do Estado, informa Carloto, existem 2 milhões de hectares disponíveis para a agricultura. Por enquanto, 30 mil hectares na região foram ocupados com as culturas trazidas do Sul.

Reflexo da diversificação, a agropecuária paraense também começa a se modernizar. O cruzamento industrial já é uma realidade nas fazendas, até pouco tempo dedicadas somente à criação de zebu. A genética angus, cujo berço no país encontra-se nos tradicionais criatórios gaúchos, está sendo utilizada como base nos cruzamentos com o nelore.

Além de grãos e pecuária, outras culturas peculiares, como o dendê e a pimenta, sustentam a economia primária do Pará. Menos exótica, a produção de laranja de mesa, até então mais comum no Sul, completa a diversificação empreendida no Estado nos últimos anos.

Desafio –  Da pequena Bossoroca, na região das Missões, no Rio Grande do Sul, até Paragominas, no nordeste do Pará, eles percorreram 4 mil quilômetros. O trajeto foi feito duas vezes pela família Carloto. Na primeira, cheios de dúvidas e curiosidade, mais para conhecer o novo lugar. Na segunda, já confiantes, só para buscar os móveis e pertences que haviam deixado em solo gaúcho.

A história dos agricultores não se difere muito da realidade vivida pela maioria das famílias que saíram do Estado em busca de vida melhor em Mato Grosso, Goiás, Piauí e Bahia. Só que Bazílio Wesz Carloto e a mulher, Cirede, deixaram o Sul com a missão de implantar o cultivo de milho, soja e arroz-de-sequeiro na região nordeste do Estado. Três anos depois, pelo menos outras 40 famílias de produtores gaúchos seguiram os passos do casal.

No começo, o trabalho foi árduo. As áreas de mata mexida, conhecidas como juquira, precisavam ser limpas. O solo necessitava de correção, faltava mão-de-obra especializada, e ninguém conhecia plantadeira e colheitadeira, relata Carloto. Mas os resultados são animadores. Na primeira safra, em 1999/2000, a produtividade não deixou a desejar. Na média, foram 53 sacas (60 quilos) por hectare na soja, 60 sacas por hectare no arroz e 80 sacas por hectare no milho.
 
A expectativa é de que a rentabilidade cresca neste ano, assim como ocorreu na área plantada, que saltou de 22 mil hectares para 30 mil hectares. Desse total, 70% é destinado ao milho, 25% ao arroz e 5% à soja. Isso porque, diz Carlotto, a região ainda carece de estrutura de armazenagem, e o milho é uma cultura mais flexível, que pode permanecer mais tempo na lavoura.

Outro problema está na variedade de soja, que ainda está sendo adaptada às condições da região. “Estamos trabalhando com uma variedade de ciclo longo, que ainda não é a ideal”.

Em compensação, os recursos hídricos são abundantes. A maioria das fazendas conta com pelo menos uma represa para geração de energia. Além de prestar assistência técnica a mais de 20 propriedades rurais na região, Carloto trabalha nos 260 hectares próprios.

As terras, admite Carlotto, ainda não começaram a dar lucro. Até porque o investimento inicial, de R$ 500 por hectares, foi alto. Mas as expectativas são grandes, e os preços dos grãos vendidos na última safra, para empresas de Belém e de Imperatriz, no Maranhão, estimulantes: entre R$ 12,50 e R$ 16 a saca de milho e R$ 16 a de arroz.

“Voltar para os 45 hectares da família em Bossoroca” ? O produtor nem pensa nisso: “O Pará tem muito a crescer. Estamos só no começo de um longo e promissor caminho”. (Zero Hora)