Pesquisadores prevêem devastação da Amazônia

Agora é oficial, por assim dizer: um estudo com previsões catastróficas sobre a Amazônia brasileira, noticiado com exclusividade pela Folha em março de 2000, passou pelo crivo da revista científica britânica “Nature”. O texto de pesquisadores brasileiros e norte-americanos saiu na última edição da revista, quinta-feira, e prevê até 270 mil km2 de desmatamento em 20 a 30 anos.

Essa área equivale a metade de tudo que já se desmatou na Amazônia brasileira, em cinco séculos. Ou a três Portugais inteiros, para aproximar a comparação do país que inaugurou a devastação pela mata atlântica, extraindo a madeira que deu nome à colônia.

O estudo é do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), uma das ONGs de pesquisa que surgiram na região na última década. Já foi editado no país, na brochura “Avança Brasil – Os Custos Ambientais para a Amazônia”, também disponível pela Internet (www.ipam.org.br/ avanca/ab.htm).

Como o título indica, trata-se de uma estimativa dos impactos do plano desenvolvimentista urdido no primeiro governo Fernando Henrique Cardoso. O Avança Brasil previa US$ 45 bilhões de investimento em infra-estrutura, como construção e pavimentação de mais de 6.000 km de estradas na Amazônia. Ainda não saiu muito do papel, mas já se anunciou que serão reavaliados seus efeitos ambientais.

Na realidade, tudo indica que esse impacto nunca chegou a ser considerado. Afinal, a investigação do Ipam, embora trabalhosa e sujeita a percalços metodológicos, parte de uma conta simples: contabilizar o desmatamento no entorno de estradas abertas nas décadas de 70 e 80 e utilizar esse indicador para prever o que aconteceria em volta das novas.

Outra maneira de encarar essa operação matemática seria dizer que se trata de aprender com a história. Nem sempre é essa a prática em Brasília, porém. De outro modo, não daria para entender por que se prioriza a pavimentação de estradas como a Cuiabá-Santarém e a Humaitá-Manaus, que rasgam ao meio faixas enormes de floresta.

Prioridade para a soja

A não ser, claro, que a prioridade do governo seja outra, por exemplo, escoar a crescente produção de soja no cerrado. Um objetivo legítimo de desenvolvimento -desde que alguém faça a conta para mostrar que essa atividade beneficiaria mais gente, com aumento de renda, do que uma economia extrativista baseada na manutenção da floresta (como o manejo sustentável da madeira).

Tal conta nunca foi feita em Brasília. São ONGs como Ipam, Imazon (Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia), ISA (Instituto Socioambiental), WWF (Fundo Mundial para a Natureza) e Amigos da Terra que a fazem. Forma-se um consenso de que estradas não são o melhor caminho para um desenvolvimento sustentável.

O estudo do Ipam, assinado por Georgia Carvalho, Ana Cristina Barros, Paulo Moutinho e Daniel Nepstad, não se limita a pôr pedras no caminho do Avança Brasil. Ele também sugere alternativas, como dar prioridade para o fortalecimento econômico de regiões já colonizadas.

Uma proposta concreta é investir em áreas ao longo da Transamazônica e da Belém-Brasília, em que fronteiras mais antigas vegetam na degradação deixada pelas madeireiras, mineradoras e pela especulação. Coisas básicas, como recuperar estradas locais, melhorar a capacidade de escoamento da produção agrícola, suporte técnico, crédito, escolas, saúde.

“Combinada com o desmatamento que ocorre na fronteira existente, a porção desflorestada da Amazônia brasileira pode subir dos atuais 14% (550 mil km2) para um terço, nos próximos 20 a 30 anos, liberando 6 a 11 Pg (petagramas, ou bilhões de toneladas) de carbono para a atmosfera”, alerta o texto. Derrubada e queimada, essa área de floresta liberaria gases-estufa equivalentes a um ou dois anos de queima de combustível fóssil pelo mundo inteiro

Folha On line

MARCELO LEITE
editor de Ciência