Palmiteiros atacam parques estaduais em SP

Palmiteiros dos Estados do Paraná e Santa Catarina viajam mais de mil quilômetros para furtar palmito em áreas dos parques estaduais de Mata Atlântica localizados no Vale do Ribeira, em São Paulo.

Contratados por intermediários que vendem a produção para as fábricas de conservas desses Estados, eles chegam de ônibus pela Rodovia Régis Bittencourt (BR-116), desembarcam em cidades como Jacupiranga, Sete Barras e Juquiá e adentram as matas. Uma semana depois, saem da floresta e voltam para seus Estados.

Calcula-se que cada um derruba, nesse período, pelo menos 400 palmeiras juçaras. Os intermediários providenciam suporte como ferramentas, caminhões, barracas e alimentação.

Os principais alvos são os parques estaduais de Jacupiranga, Carlos Botelho, Intervales e Alto Ribeira (Petar). Juntos, eles formam o contínuo ecológico de Paranapiacaba, com mais de 120 mil hectares de Mata Atlântica, declarado recentemente patrimônio natural mundial pela Unesco.

O ex-palmiteiro S.M.O., de 47 anos, contou numa única leva 82 pessoas, a maioria catarinenses, entrando de madrugada no Parque Estadual Carlos Botelho, no município de Sete Barras. Muitos estavam armados.

O administrador do parque, engenheiro José Luis Camargo Maia, confirma as invasões e diz que os “forasteiros” são atraídos pela quantidade de palmitos que ainda existe em São Paulo. No Paraná e Santa Catarina, a palmeira juçara está escasseando, o que motiva a migração dos cortadores.

Mas o maior número de palmiteiros é da própria região. “No bairro do Rio Preto, em Sete Barras, 90% das famílias sobrevive de cortar palmitos”, afirma S.M.O.. Ele, que já fez parte de um dos grupos, conta que cada equipe passa seis dias no interior da mata. “Nos três primeiros, corta-se o máximo possível de palmitos, e nos dias seguintes, é feita a colocação nos vidros.”

O palmito cortado deve descansar durante três dias antes de ser envasado. Nesse período, as toras ficam escondidas sob a folhagem.

Se a polícia chega, os palmiteiros se dispersam e depois voltam para retirar a produção. Segundo S.M.O., a produção fica tão bem escondida “que nem macaco acha”. Cada homem leva facão, machado e mochila com alimentos, além da carga de vidros.

Se a área é bem isolada e tem muito palmito, armam-se barracas de lona. Lá mesmo, na mata, os palmiteiros recolhem água de nascentes, enchem os vidros e cozinham o produto. O intermediário fornece o ácido cítrico e o sal.

A mistura é de um copo de ácido e um quilo de sal em 20 litros de água. Cada caixa com 15 vidros de 300 gramas vai render R$ 18 para o palmiteiro. O intermediário revende a caixa por R$ 35. Durante o trabalho, há sempre um homem na vigilância, armado com espingarda e revólver.

À noite, o olheiro permanece em um girau no alto das árvores, protegendo o grupo da investida de animais. S. conta que ainda existem ali muitas onças. Há também os olheiros que permanecem fora da mata e sinalizam com rojões se houver blitz em andamento. O palmito embalado é tirado por terra, em camionetas, ou de barco, pelos rios.
(Estadão)