Impunidade estimula contrabando de aranhas

Viajar à noite, durante finais de semana, hospedar-se em hotéis modestos e retirados do centro e circular nos meios científicos são alguns dos subterfúgios utilizados pelo alemão Marc Baungarten para esconder sua condição de comerciante de aranhas caranguejeiras, ou tarântulas.

A facilidade com que ele transita pelos Estados brasileiros do Paraná, Pará, Piauí e Maranhão, onde coleta os espécimes, e pelos aeroportos internacionais, de onde sai para vender as aranhas na Europa e Estados Unidos, vem estimulando suíços e franceses a seguir o mesmo caminho.

Aqui no Brasil, ele foi preso pela primeira vez em 1997, no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, embarcando para a Alemanha com 112 aranhas vivas, acondicionadas numa caixa de isopor e despachadas como bagagem. Alegou ser pesquisador e estar “exportando” os espécimes – apesar de não dispor de autorização – para preservar as espécies “devido à falta de proteção que tais animais sofrem em nosso país”, conforme consta na promoção de arquivamento do caso, daquele mesmo ano.

Liberado após prestar depoimento, Baungarten foi citado em outro inquérito, de 1998, por ter despachado outras 42 aranhas, de Belém, antes de sua prisão no Galeão. A caixa com as aranhas vivas seguiu por correio para a Alemanha, mas não foi reclamada e voltou para o remetente, quando foi então descoberta e deu origem ao inquérito. As aranhas não resistiram à dupla jornada e morreram.

No último dia 10 de fevereiro, Marc Baungarten foi preso novamente, desta vez em Curitiba, no Paraná, de posse de 5 aranhas. Autuado com base na Lei de Crimes Ambientais, por transportar espécime da fauna silvestre sem autorização, ele foi ouvido em audiência no último dia 14, no Juizado de Pequenas Causas, e obteve o arquivamento do processo.

O juiz, Jorge Vargas, disse à Agência Estado que desconhecia as prisões anteriores do acusado quando pronunciou a sentença, considerando relevantes tais informações.

“Um dos maiores problemas que temos, para enfrentar o tráfico de animais silvestres é a falta de informações”, explica Dener Giovannini, da Rede Nacional Contra o Tráfico de Animais Silvestres (Renctas). O próprio superintendente da Delegacia de Meio Ambiente da Polícia Civil de Curitiba, Celso Gomes, admitiu que a dificuldade de obter informações num sábado favoreceu a liberação do alemão, após depoimento. “Estamos trabalhando num banco de dados acessível 24 horas por dia e 7 dias por semana, via Internet, justamente para atender a casos como este”, completa Giovannini.

O banco deverá estar no ar em maio, mas, até lá, os ativistas da Renctas prestam esclarecimentos informalmente a qualquer policial que os solicite.

“Marc Baungarten é um nome conhecido entre os colecionadores de tarântulas da Europa e dos Estados Unidos”, afirma Rogério Bertani, do Instituto Butantan. “Ele leva matrizes ovadas do Brasil e do México para a Alemanha, lá espera os filhotes crescerem até fazer a sexagem (separar machos e fêmeas), comercializando só as fêmeas, de modo a ter exclusividade sobre aquelas espécies”.

Com este recurso, ao invés de vender aranhas comuns, por um ou dois dólares, vende espécies mais raras, a cerca de 50 dólares. “Algumas das espécies apreendidas com ele no Galeão constam de diversos anúncios de venda, que ele faz, via Internet, a clubes de colecionadores de tarântulas, demonstrando que ele habitualmente leva as aranhas brasileiras para a Europa e, com certeza, não é para fins de pesquisa”.
(Estadão)