Aquecimento global já afetaria praias do Rio

Praias sem areia, continentes invadidos pelo mar. Indícios de conseqüências do aquecimento global – que segundo a ONU pode até o fim do século XXI provocar um aumento de até 6 graus Celsius na temperatura média, o que elevaria em 50 centímetros o nível dos oceanos do planeta – já podem ser observados nas praias do estado do Rio, segundo cientistas cariocas.

Um estudo do Laboratório de Oceanografia Geológica da UERJ analisa desde 1997 sete praias da Ilha Grande (sul do estado), e há dois anos o litoral do município do Rio desde a praia do Leme até a de Grumari.

O objetivo é detectar a chamada erosão costeira, ou quanto de areia e sedimentos as praias perdem para o mar ao longos dos anos. Os resultados preliminares da pesquisa e as previsões para o futuro estão longe de ser animadores e mostram que a elevação da temperatura pode estar, isoladamente, acelerando o desgaste.

Por enquanto, o estudo pode precisar somente o avanço do mar sobre a Ilha Grande. A praia mais afetada, Lopes Mendes, apresentou, nos últimos cinco anos, perdas de até dois metros de sua camada de sedimentos, que inclui areia, lama e rochas.

– Isso pode ser visto a olho nu, já que se trata de uma praia praticamente intocada pelo homem. Parte da vegetação do litoral, antes encravada na areia, encontra-se com as raízes expostas, o que indica uma perda significativa de areia – explica o oceanógrafo Marcelo Sperle Dias, coordenador do estudo.

No município do Rio, onde monitoram o litoral há dois anos, os cientistas fizeram uma análise mais qualitativa da perda de areia. Por serem praias urbanas, a observação necessita de mais tempo.

– Ainda não temos os números exatos, mas já sabemos que o desgaste maior ocorre em Arpoador, Ipanema (Posto 9), Copacabana (postos 5 e 6) e São Conrado – conta Sperle.

A relação entre erosão costeira e aquecimento global é compreensível. À medida em que a temperatura aumenta, as calotas polares perdem gelo e o nível do mar (assim como a energia das correntes marítimas e atmosféricas) também aumenta.

A perda de faixa de areia seria uma conseqüência desse processo. Detectar a erosão é importante não só para prever seus futuros estragos, mas também para tentar controlá-los com a construção de barreiras de contenção do mar ou realização de operações para repor a areia da praia.

Mas por que alguns locais apresentam erosões maiores do que outros?
– Tem a ver com as características oceanográficas e os projetos de engenharia. A intensidade das ondas, por exemplo, faz com que o mar invada mais ou menos uma praia, deslocando a areia.

Mas a areia não é somente arrastada para mar aberto, ela pode ser acomodada no continente. Se há uma construção próxima ao local do fenômeno, ela impede o transporte de sedimentos litorâneos, acelerando o desgaste – explica Sperle.

O método de pesquisa usado pelos cientistas da Uerj já recebeu elogios e é copiado por vários centros de pesquisa no mundo.

– Como os equipamentos científicos para detectar erosão de areia são caros, é impossível ter um em cada praia. Na Ilha Grande, onde há várias praias num pequeno espaço físico, pudemos desenvolver bem a técnica, que cruza, num programa de computador, dados como tamanho dos grãos e volume de areia, energia e forma das ondas, inclinação da praia, profundidade de arenitos (rochas que normalmente encontram-se no nível do mar e hoje já estão mais fundas), microorganismos que vivem na superfície e vegetação – diz Sperle.
(O Globo)