Vegetais e atmosfera evoluíram juntos

Segundo cientistas da Universidade de Sheffield (Reino Unido), as plantas só ganharam folhas quando os níveis de gás carbônico (CO2) diminuíram na atmosfera da Terra.

Curiosamente, foram as próprias plantas as responsáveis por essa diminuição do gás.

O CO2 é o mesmo gás produzido pelo homem na queima de combustíveis fósseis, que contribui para o efeito estufa (retenção do calor solar na atmosfera).

As folhas não estavam presentes nas primeiras espécies vegetais que surgiram sobre a Terra, há 400 milhões de anos. Por mais de 40 milhões de anos, simplesmente não existiram. Quando muito, assemelhavam-se a espinhos.

Quando as plantas começaram a povoar a Terra, as taxas de CO2 eram elevadas. Não havia por que terem muitos estômatos -espécie de poros que regulam a troca de gases entre a planta e a atmosfera- para suprir suas necessidades de fotossíntese. Nesse processo, o gás carbônico serve como matéria-prima para a síntese dos compostos orgânicos que alimentam a planta e seu crescimento.

Havia uma outra razão para não existirem folhas. Devido à alta temperatura atmosférica, a planta corria o risco de sofrer um superaquecimento caso apresentasse superfícies amplas como as das folhas. Interceptando mais luz, elas se aqueceriam. Por não terem um número suficiente de estômatos que permitisse a evaporação de água e o consequente resfriamento, acabariam sofrendo um estresse por calor.

Com o tempo, a situação começou a mudar. Usando modelos computacionais que simulavam as taxas de trocas gasosas que poderiam ter ocorrido naquele período e mais dados obtidos de fósseis de plantas, David Beerling, principal autor do estudo que foi publicado na última edição da “Nature” (www.nature.com), descobriu que o aparecimento das folhas estaria ligado a uma queda de cerca de 90% nos níveis de carbono na atmosfera no final do Período Devoniano, há 360 milhões de anos.

“As próprias plantas foram responsáveis pelo declínio do carbono”, disse Beerling à Folha, por e-mail. “A disseminação das florestas no Devoniano e o acúmulo de carbono nas áreas pantanosas no Carbonífero fizeram com que o gás carbônico diminuísse.”

As plantas passaram a armazenar carbono nos seus tecidos (troncos, por exemplo), e as raízes, ao “quebrarem” as rochas e permitirem a formação de um solo mais arejado, auxiliaram na remoção do CO2 da atmosfera.

Com isso, houve uma mudança também na matemática da fotossíntese. Com menos gás carbônico disponível, as plantas foram obrigadas a produzir estruturas com maior número de estômatos. Mais estômatos também significaram uma capacidade de resfriamento maior, tornando possível o surgimento de folhas mais largas.

Beerling afirma que seus modelos computacionais serão usados também para tentar definir a composição química de atmosferas passadas. “Como o fluxo de gases de ecossistemas anteriores influenciou a concentração de importantes gases-estufa? Sabemos tão pouco sobre um tópico tão importante. Mas, agora, com as ferramentas apropriadas, poderemos começar a mexer nisso”.
(Folha de São Paulo)