Plataforma de 1 bi afunda com nove corpos na bacia de Campos

Fracassaram as operações para salvar a plataforma P-36, que sofreu três explosões na última quinta-feira, no Rio, matando dez pessoas. Ela afundou às 10h30 desta terça e, duas horas depois, já estava vazando óleo, segundo informações já confirmadas pela Petrobras. “Não há como resistir à pressão do fundo do mar”, informou a assessoria da empresa à Folha Online. Um milhão e meio de litros de óleo diesel e petróleo armazenados na P-36 já estão escoando pelo mar e ameaçam o ecossistema na região da bacia de Campos e deve atingir o litoral em cerca de 200 horas, segundo especialistas do governo do Rio.

A plataforma teria virado de ponta-cabeça depois de afundar até 1.360 metros de profundidade, segundo a Petrobras. O presidente da empresa, Henri Philippe Reichstul, já havia dito em entrevista coletiva no Rio que o vazamento seria “inevitável”.

Agora a P-36 ficará isolada no leito da bacia de Campos. Os nove corpos dos funcionários mortos no acidente não poderão ser resgatados. As explosões na maior plataforam petrolífera do mundo mataram dez pessoas e deixaram um ferido em estado gravíssimo, com 98% do corpo com queimaduras de segundo e terceiro graus.

A Globonews mostrou as primeiras imagens do afundamento. Uma equipe da Globo estava na plataforma P-27, ao lado da P-36. Imagens mostraram a plataforma submergindo a uma grande velocidade. Da superfície ao leito do mar teriam sido 10 minutos de descida, segundo a assessoria da empresa. No entanto, Irany Varella, diretor de Meio Ambiente da Petrobras, disse por volta das 13h que a P-36 ainda não havia tocado o leito oceânico.

Segundo Reichstul, o mar revolto foi o motivo do fracasso do resgate da P-36. Durante toda a noite, ela afundou em maior velocidade que nos dias anteriores. Mergulhadores e técnicos tentavam salvar a obra com a injeção de substâncias químicas na coluna (leia mais sobre isso abaixo, neste mesmo texto).

A inclinação teria passado dos 90 graus de inclinação na manhã desta terça, quando o afundamento se intensificou.

As equipes da Petrobras também fracassaram em evitar o vazamento. A P-36 pesa 31,4 mil toneladas e tem a altura de um prédio de 40 andares. Várias equipes estavam com bóias e contentores de petróleo, mas a operação não está surtindo efeito, uma vez que o óleo vaza do fundo e se espalha antes de chegar à superfície.

Se custou por volta de R$ 750 milhões, seis anos atrás, o prejuízo atual que o afundamento da P-36 causará ao país vai passar de R$ 1,5 bilhão. Somente este ano serão quase R$ 100 milhões por mês de prejuízo com o fim da produção de 80 mil barris/dia da plataforma, construída na Itália em 94.

Além disso há os custos da construção e/ou readaptação de uma nova plataforma que substituirá a P-36, até quinta-feira responsável por 6% da produção nacional de petróleo. Por fim, deve-se somar o dinheiro que a “manutenção” da plataforma no fundo do mar vai consumir. O equipamento não pode ser deixado, pura e simplesmente, no leito oceânico. Equipes com robôs e, provavelmente, mergulhadores, terão de cuidar para que a P-36 não prejudique a extração de petróleo das outras plataformas da bacia de Campos.

Corpo resgatado

Equipes de salvamento só conseguiram resgatar, no último sábado, o primeiro e único corpo de uma das dez vítimas do acidente. Ele foi identificado: Sérgio dos Santos Souza anos, 34, mecânico. Ele era casado, tinha dois filhos e trabalhava havia 12 anos na estatal. Foi enterrado ontem, na Bahia.

O corpo foi encontrado por volta das 11h por funcionários voluntários que entraram na P-36 no sábado (17) e seguiu de helicóptero para o IML de Macaé. O cadáver estava partido em dois na altura da cintura e apresentava queimaduras. Os demais corpos nem chegaram a ser vistos pelas equipes.

O gerente executivo de Produção e Exploração da Petrobras para o Sul-Sudeste, Carlos Tadeu Fraga, disse que a empresa está buscando uma alternativa legal que permita à companhia custear os estudos, até a universidade, dos filhos de empregados vítimas de acidentes fatais _uma medida que beneficiaria a todos os empregados e não apenas aos 10 mortos na Plataforma P-36.

Operação estabilidade

A Petrobras contratou técnicos de uma empresa holandesa especializados em resgatar embarcações inundadas para tentar salvar a plataforma. Nada deu certo (veja vídeos das operações de resgate clicando no alto desta página à direita).

Desde sábado, haviam sido injetadas 4.100 toneladas de nitrogênio no pilar em que ocorreram as explosões na quinta-feira passada e que ocasionaram o afundamento de parte da plataforma.

A Petrobras havia conseguido retirar 700 toneladas de água da P-36. A expectativa era de que a plataforma se estabilizasse quando fossem retiradas pelo menos 4.000 toneladas de água. Antes do início da operação de sucção de água, havia cerca de 7.000 toneladas de água na plataforma.

Heróis

Henri Philippe Reichstul afirmou que os dez trabalhadores pertenciam a duas brigadas de incêndio e, por isso, tinham a obrigação de proteger os outros funcionários. “Nenhuma pessoa que não estava envolvida no combate foi ferida. Esses dez trabalhadores são heróis, são bravos”, disse ele em Macaé.

A família de Sérgio dos Santos Souza, uma das vítimas, no entanto, estava revoltada com o acidente e disse que os funcionários da brigada de incêndio não estavam preparados para a função.

“Meu irmão era mecânico. Essas brigadas são formadas por trabalhadores que têm outras funções na empresa. Tem eletricistas, operadores de tubulação. É um absurdo. Eles são submetidos a múltiplas funções e, num momento desse, de acidente, estão cansados e sem o preparo adequado. Não são bombeiros”, disse Sandra Maria dos Santos Souza, irmã da vítima, que veio de Salvador, onde mora, com outros três irmãos da família.
( Folha Online)