Árvore indiana adaptada ao Brasil tem aproveitamento de 100%

Planta exótica e de múltiplos usos, o Nim (Azadirachta indica A. Juss) é originário da Índia e foi introduzido no Brasil em 1993 pelo pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão, Belmiro Pereira das Neves. Hoje, os estudos com a árvore são direcionados ao seu uso para fins de reflorestamento, no controle de pragas e nos setores agropecuário e farmacológico.

“O Nim é a planta ideal para reposição florestal, devido ao seu rápido crescimento, à riqueza em tanino – substância amarga presente na madeira, que evita o ataque de cupins e traças – e ao rebrotamento do tronco após o corte”, explica Belmiro. Das sementes se extrai a torta (pasta), empregada na fabricação de inseticidas biológicos, e o óleo, utilizado na fabricação de shampoos, sabonetes, pasta dental, entre outros.

Árvore típica de clima tropical e seco, o Nim se desenvolve melhor em regiões de altas temperaturas, de 20°C a 40°C, baixa precipitação e sob condições de solos arenosos. “Nessas condições, a árvore já produz frutos com menos de três anos de vida”, diz o pesquisador. Belmiro ressalta que o produtor rural pode cortar a planta cinco anos após o plantio, e aproveitá-la como carvão vegetal, caibros, ripas e mourões. Além disso, por ser uma madeira de lei, pertencente à família do mogno, ele explica que com dez anos a madeira já pode ser destinada ao fabrico de móveis de qualidade.

Além de ser uma excelente fonte energética, usada na produção de carvão vegetal, etanol, metanol e lenha, assim como na recuperação de áreas degradadas, o Nim indiano também é recomendado no manejo de pragas. “Sabe-se que o óleo do Nim combate 413 espécies de insetos”, informa Belmiro. A eficiência da planta se estende a fungos, bactérias, carrapatos, piolhos, e à medicina humana, sendo já utilizada como diurético. O pesquisador conta que na Índia, a folha da árvore é vendida para o preparo de chá. No Brasil a bebida também é conhecida, apesar de não estar disponível no comércio.

A entomologista do Instituto Agronômico no Paraná (Iapar), Suely Martines, diz que há uma demanda crescente por parte dos consumidores e agricultores por produtos orgânicos. “O agricultor precisa de um produto inócuo que seja menos nocivo. O Nim é um exemplo desse produto, pode-se usar o óleo sem problemas”, destaca. Suely afirma que o Nim exerce múltiplos efeitos sobre o inseto, uma vez que o óleo repele, mata e também afeta o desenvolvimento da praga. “Os insetos que sobrevivem ao tratamento com o Nim se tornam estéreis”, informa a bióloga.

A pulverização, segundo a técnica, é feita com 5 ml do óleo para cada litro de água. Ela ressalta ainda que a ingestão do bioinseticida é mais eficiente do que o contato com o corpo do inseto. “O Nim é menos tóxico por contato, além de ser eliminado rapidamente do corpo da praga”, explica. Além da baixa toxicidade, não causando prejuízos à saúde do homem, Suely garante que depois de vinte dias no solo, o óleo se deteriora.

De acordo com Suely, a linha de trabalho do Iapar em relação ao Nim indiano diz respeito a adaptação de biótipos da planta em diversos locais do país, principalmente em relação a região sul, por ser uma localidade de temperatura baixa. Portanto, de difícil adaptação da árvore, bem como da ação de extratos, obtidos da folha, e do óleo de Nim sobre pragas de importância econômica e inimigos naturais. “No Paraná, o desenvolvimento de frutos é lento. A máxima produção com plantas de dez anos corresponde a 8 quilos de frutos frescos”, afirma a bióloga.

Uma outra preocupação dos produtores, conforme atesta a pesquisadora da Embrapa Tabuleiros Costeiros, Maria Salete Rangel, diz respeito às condições de armazenamento das sementes, para que estas mantenham a viabilidade por um período mais longo. Este trabalho, segundo Salete, já é realizado pela Embrapa.

Em Sergipe, conta ela, as plantas começam a produzir com três anos de idade, em condições excelentes, mas ainda não existe um programa de plantio comercial da planta na região. “O primeiro contato que tivemos com o Nim foi para fins de recuperação de áreas degradadas. Agora estamos estudando outras perspectivas como o seu comportamento nas diversas condições edafoclimáticas do Nordeste”, explica a pesquisadora.

A meta da Embrapa, que irá coordenar os projetos com o Nim, é traçar um programa de pesquisa e desenvolvimento com a planta para assegurar as tecnologias apropriadas, visando tanto os agricultores quanto a iniciativa privada. Para isso, é necessário o respaldo das indústrias nacionais, que já investem no Nim, a exemplo da Quinabra e Resitec, ambas de São Paulo, que se dispuseram a adquirir matéria-prima dos agricultores. “Existe uma demanda interna muito grande. Primeiro pensamos em produzir internamente, atendendo nosso mercado. Quanto ao excedente, poderíamos pensar em exportar futuramente”, conclui Belmiro Pereira das Neves. (Radiobrás )