Professor de arquitetura descobre telha que coleta energia solar.

Apesar da abundância do recurso, a energia solar tem participação mínima no quadro de consumo no país. Alguns técnicos atribuem ao fato uma questão cultural, alegando que os brasileiros já se acomodaram a praticidade do serviço ofertado pelas empresas concessionárias do setor. Entretanto, quando verificamos os custos de instalação dos equipamentos necessários a transformação de calor em energia elétrica concluímos que essa opção é muito mais econômica do que qualquer outra.

Visando a tornar mais acessível e captar um interesse maior pela energia solar, o professor Francisco de Alencar, chefe do Departamento de Desenho Industrial da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), campus de Bauru, desenvolveu uma telha coletora de energia solar. A pesquisa fez parte de seu doutoramento pela própria universidade, em Botucatu.

O objetivo do pesquisador era desenvolver uma telha que agregasse simultaneamente a função de cobertura residencial com a coleta de energia solar. Segundo Alencar, não há tradição no país em integrar aspectos estéticos, econômicos e sociais nos projetos. No caso da energia solar a situação se complica visto que os modelos de coletores existentes no mercado não se adaptam a qualquer projeto ou orçamento. “Um chuveiro elétrico custa quase 50 vezes mais barato que o aquecedor solar convencional”, comenta ele.

Para identificação dos modelos mais eficientes, o pesquisador confeccionou protótipos com vários materiais: polietileno, telhas de fibro cimento, cobre, alumínio, vidros. Como parâmetro de comparação para os modelos testados, Alencar usou um coletor solar plano, comercializado nacionalmente e com selo do Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro) atestando sua qualidade.

Os testes consistiam em induzir a circulação de água no coletor solar tradicional e nos protótipos sob as mesmas condições climáticas e durante o mesmo espaço de tempo.
Aferindo as temperaturas na entrada e na saída da água, o teste apontou o coletor desenvolvido a partir de uma telha de fibro cimento, com área de captação da radiação solar em cobre (aletas e serpentinas), como o de melhor resultado, 80% de desempenho médio em relação ao coletor padrão.

“Esses experimentos mostraram que os protótipos apresentam eficiências promissoras para o estágio de projeto, podendo-se prever que, com a implementação de melhorias, possam atingir rendimentos compatíveis com o seu custo mais reduzido, frente ao coletor padrão”, acrescenta o professor.
Todos os coletores testados foram construídos com as mesmas especificações: uma caixa com área de absorção de radiação solar medindo 1 m² e coberta com vidro para provocar o efeito estufa.

A serpentina por onde a água circulava era de cobre. Segundo Alencar, o custo total do modelo em fibro cimento é 60% inferior ao coletor utilizado como padrão, com possibilidade deste custo ser reduzido com a adoção de outras soluções, como, por exemplo, a substituição da serpentina de cobre.

Os números dos testes revelaram que o coletor padrão absorveu 60,45% do calor, enquanto que no protótipo em fibro cimento esse índice foi de 53,39%. “Mesmo em dias de baixa insolação, os valores decresceram para ambos na mesma proporção mostrando uma constância nos valores entre os dois”, revela o professor da Unesp.

Após constatar que os melhores resultados foram com a telha de fibro cimento, o protótipo foi redesenhado para se adequar aos padrões arquitetônicos utilizados no Brasil. A telha pode ser utilizada tanto isoladamente, apenas como elemento de cobertura, como possibilita o encaixe dos componentes que caracterizam os coletores solares. Como informa Alencar, nos dois casos, o produto foi desenvolvido de forma a permitir que a água da chuva escorra sem ocasionar problemas de infiltração ou refluxo sob os telhados.

O principal entrave para a comercialização desse coletor solar está justamente no material em que os resultados foram melhores. O fibro cimento é composto por cimento e fibra de amianto. Esta fibra natural, extraída de rochas, está sendo banida em todo o mundo. A inalação de amianto ou asbesto provoca a asbestose, doença que enrijece as fibras pulmonares e para a qual não há tratamento.

Alguns municípios brasileiros, como São Paulo, São Caetano do Sul, Mogi Mirim, Bauru e Osasco, em São Paulo, já proíbem a comercialização de produtos que contenham amianto.
Para solucionar esse problema, Alencar já negocia com empresas do setor de construção que em breve estarão substituindo as telhas de amianto por modelos que utilizam o mesmo cimento como construtivo básico, mas com fibra sintética como reforço. De acordo com ele, isso deve ocorrer em no máximo três meses.

“A composição dessa fibra sintética não foi revelada pelos empresários, mas eles garantem que ela não interferirá nos resultados obtidos com a telha de fibro cimento como coletor solar”, informa. (Agência Brasil )