Unesp criará métodos para analisar a qualidade de combustíveis

O Instituto de Química (IQ) do campus de Araraquara, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) foi selecionado para sediar um dos quinze laboratórios de pesquisa da qualidade de combustíveis a serem implantados no país. Em São Paulo outros dois laboratórios serão instalados na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) da Universidade de São Paulo (USP).

Os novos laboratórios integram o Plano Nacional de Ciência e Tecnologia do Setor do Petróleo e Gás Natural (CTPetro). Os projetos foram selecionados pela Financiadora de Estudo e Projetos (Finep), órgão vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), com a assessoria técnica da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Os recursos para os laboratórios virão do Fundo Setorial do Petróleo, do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

A missão do Instituto de Química da UNESP, será desenvolver outros métodos de análise para o controle da qualidade de combustíveis automotivos (álcool, gasolina, querosene e diesel), empregando as técnicas eletroanalíticas (que faz medidas elétricas para quantificação de substâncias químicas), espectroanalíticas (que faz medidas a partir da exposição a uma fonte luz) e cromatográficas (que se baseia em processos de separação de substâncias contidas em amostras complexas).

Para a instalação de cada laboratório são previstos investimentos de R$ 1,5 milhão. Com a criação dos fundos setoriais (o do petróleo foi o primeiro) houve uma mudança de mentalidade no custeio das pesquisas científicas no país. “Trata-se de uma alternativa com financiamentos bem direcionados e com garantia de continuidade”, ressalta o professor Nelson Ramos Stradiotto, coordenador do projeto Contaminantes Orgânicos e Inorgânicos em Combustíveis Automotivos, que foi o apresentado pelos pesquisadores do IQ.

Os recursos serão aplicados na construção de um prédio de 300 m² no IQ, na importação de equipamentos e na contratação de três técnicos de nível superior. O projeto tem duração inicial de dois anos e sua elaboração mobilizou praticamente todo o Departamento de Química Analítica do IQ, com a participação de nove pesquisadores.

O grupo de pesquisa em eletroanalítica, formado pelos professores Stradiotto, Fernando Luis Fertonani, Hideko Yamanaka e Maria Valnice Boldrin pretende desenvolver sensores amperométricos e potenciométricos para a determinação de metais pesados (cobre, ferro, chumbo, níquel, cromo) em álcool combustível. “Nosso objetivo é desenvolver uma metodologia alternativa com custo menor e análise mais rápida. A presença de metais pesados no álcool combustível desemboca em problemas ambientais e no próprio desempenho do motor”, lembra Stradiotto.

Outro objetivo dos pesquisadores é o desenvolvimento de metodologia para a determinação de compostos orgânicos (aldeído acético, acetato de etila, acetal) em álcool combustível, utilizando as técnicas de voltametria de redissolução adsortiva e cromatografia líquida de alta eficiência com detecção eletroquímica. Na opinião de Stradiotto, a criação de parâmetros para fundamentar a elaboração de legislação específica para componentes orgânicos em álcool combustível é de suma importância para o país.

O professor Júlio César Rocha pretende desenvolver metodologia para a determinação de metais (cobre, ferro, níquel, zinco) em álcool combustível por meio de procedimentos de pré-concentração e análise por espectrofotometria de absorção/emissão atômica. A cargo de Arnaldo Alves Cardoso está a criação de metodologia para a detecção de produtos formados na queima de combustíveis (álcool, gasolina, querosene e diesel) e liberados pelos veículos automotores, utilizando o método de separação de compostos orgânicos, denominada eletroforese capilar. “Esse trabalho é importante devido ao seu aspecto ambiental e também e tecnológico no que diz respeito à melhoria do desempenho do motor”, disse Cardoso.

Os pesquisadores José Anchieta Gomes Neto e Mercedes de Moraes, pretendem chegar a métodos analíticos alternativos que determinem metais pesados (alumínio, níquel, cádmio, zinco, manganês, chumbo, cobre e ferro) em álcool, querosene e óleo diesel. Esse estudo se insere na área de nanoanálise, ou seja, análises químicas de volumes de amostras (da ordem de 1 milionésimo de litro) e de massas dos metais da ordem de 1 trilionésimo do grama. Para esse experimento os pesquisadores contam com um espectrofotometro de absorção atômica em forno de grafite e uma estação robotizada para fazer as amostragens.
Utilizando a técnica da cromatografia, por meio da qual se faz a separação de constituintes orgânicos de misturas e identificação das moléculas, a pesquisadora Mary Rosa Santiago pretende investigar a presença de aromáticos em óleo diesel e gasolina, que ajudam a identificar a origem de adulterações.

Os combustíveis fraudados acarretam corrosão e interferem no desempenho do motor, além de contribuir para a emissão de poluentes na atmosfera. Mary Santiago esclarece que como existem perfis diferentes de gasolina, “o desafio será estabelecer um método e validá-lo para qualquer gasolina”.
Paralelamente ao laboratório de pesquisa, o CTPetro prevê a implantação de laboratório de monitoramento da qualidade de combustíveis, numa parceria entre a Agência Nacional do Petróleo (ANP) e as universidades. A Unesp terá os dois laboratórios, de pesquisa e monitoramento de combustíveis. (Agência Brasil – ABr)