Pantanal entra em mais um ciclo de seca

O Pantanal deve sofrer, este ano, uma de suas maiores secas. A previsão advém do método de monitoramento do nível do rio Paraguai, desenvolvido pelo hidrologista da Embrapa Pantanal, Sérgio Galdino, e o estatístico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Robin Clarke. O sistema toma como referência a cidade de Ladário (MS), próxima a Corumbá, e beneficia 1.200 famílias, 200 pecuaristas e 600 pescadores profissionais.

A pesca turística é a segunda atividade econômica no Pantanal e movimenta algo em torno de R$ 30 milhões por ano no estado. É também uma das atividades mais prejudicadas com o ciclo de secas já que o baixo volume do rio atrapalha a subida dos peixes jovens, fenômeno conhecido como piracema. A proibição corriqueiramente decretada na época da piracema, que deveria terminar entre outubro e novembro, por exemplo, foi prorrogada para janeiro, quando ainda havia cardume subindo o rio.

Isso se deve às intensas estiagens observadas na região. “Foram três anos consecutivos de pouca chuva e isso afeta o volume de água nas baías”, comenta Galdino. As baías são locais perfeitos para a nutrição dos peixes. Conforme relato do pesquisador, o volume de chuva tem sido menor, afetando a inundação no Pantanal.

Enchentes ao norte da Bacia do Alto Paraguai (Bap) – a parte mais elevada da bacia, que abrange as regiões de Cáceres, Poconé e Barão de Melgaço (MT) – influenciam a planície no Centro-Sul, que é o próprio Pantanal. Um detalhe importante a se observar é que a inundação ocorre lentamente na planície devido à baixa declividade. O método desenvolvido por Galdino e Clarke permite prever com antecedência de pelo menos dois meses, tanto o nível máximo (pico de cheia), como o nível mínimo do rio.

Com isso, é possível alertar a população seja pela mídia, seja pelos sistemas de Defesa Civil locais. “A previsão do nível mínimo do rio Paraguai, em Ladário, é muito importante tanto para o Mato Grosso, como para o Mato Grosso do Sul, bem como para a Bolívia, porque as embarcações de soja provenientes dos portos de Cáceres (MT) e da Bolívia trafegam por Corumbá/Ladário”, observa Galdino.

No caso de cheia, o gado precisa ser deslocado para áreas mais altas, o que pode levar mais de um mês. Daí a importância de ter a previsão com antecedência. “Os pecuaristas precisam também arrendar terras para confinar o gado e isso leva tempo”, explica. A população ribeirinha também se beneficia porque pode programar a mudança temporária, com segurança.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) tem um sistema de medição do nível dos rios da Bap e do índice pluviométrico, executado pela Companhia de Pesquisas e Recursos Minerais (CPRM). É o Projeto Pantanal, cujos dados são enviados semanalmente à Embrapa. No entanto, por esse método, só é possível fazer previsões de quatro semanas de antecedência, no máximo.

A medição do nível do rio, em Ladário, é feita pelo Serviço de Sinalização Náutica do 6º Distrito Naval da Marinha, desde 1900. É o posto que dispõe de mais dados de altura de água de toda rede fluviométrica instalada na Bap. Por isso, a régua de medição da cidade de Ladário é o principal referencial do regime hidrológico da bacia. São 100 anos de registros diários, sem falhas e isso faz com que o método da Embrapa Pantanal tenha alto índice de acerto, tanto na previsão de cheias como de secas.

O sistema baseia-se na comparação dos níveis atuais com os registros dos anos anteriores, levando em conta, para a mesma data do ano, o que sucedeu nos dias seguintes. Em 1995, por exemplo, esse método previu que a cheia naquele ano seria excepcional, com três meses de antecedência. Foi a terceira maior cheia do século na região, com o nível do rio Paraguai registrado em 6,56 metros. Pecuaristas foram avisados da possibilidade de cheia, permitindo que o rebanho fosse deslocado para regiões topograficamente mais altas.

Acima de 4 metros, o rio está em cheia. No entanto, há outros fatores que especificam a análise. Por exemplo, os pesquisadores classificam de cheia pequena quando o nível está entre 4 e 4,99 metros, de cheia normal se o nível estiver entre 5 e 5,99 metros e de cheia excepcional quando o nível é igual ou superior a 6 metros.

Assim, embora na maior cheia do século passado, ocorrida em abril de 1988, o rio tenha atingido a marca de 6,64 metros, a cheia que causou mais danos à pecuária bovina do Pantanal foi a de 1974, quando o nível máximo registrado foi de 5,46 metros.

Milhares de cabeças de gado morreram porque os pecuaristas foram pegos de surpresa. Afinal, a cheia naquele ano ocorreu após o mais longo período de seca do Pantanal. Foram quase dez anos, de 1964 a 1973, de seca. O nível máximo registrado na régua de Ladário, nesse período, foi de 2,74 metros.

De acordo com Galdino, o nível atual do rio Paraguai, que foi de 2,67 metros ontem (19), é considerado normal. É que, nessa época do ano, os níveis ficaram entre 1,92 metros e 4,94 metros. A partir da cheia de 74, iniciou-se um longo período de cheias no Pantanal, fato que vinha ocorrendo até 97.

De 1998 a 2000, o nível máximo não excedeu a 4,66 metros. Além disso, em 1999 e em 2000, se registraram os nívels mais baixos desde 1973 (último ano de seca). No dia 11 de novembro passado, o rio Paraguai chegou a 1,11 metros de profundidade.

Embora a previsão do nível mínimo do rio só comece a ser feita em agosto, Galdino acha possível que ocorra o menor nível dos últimos 27 anos até o final desse ano. Níveis muito baixos dos rios do Pantanal acarretam prejuízos econômicos em função da dificuldade de navegação, afetando o transporte de cargas, a pesca e o turismo.

Além da soja, minérios de ferro e manganês são escoados pelo rio Paraguai, por exemplo. A pesca é basicamente prejudicada porque o pequeno volume de água dificulta a piracema e a reprodução dos peixes, conseqüentemente. Até mesmo a pecuária, opina Galdino, pode ser uma atividade lesada com a seca, muito embora a cheia seja muito mais preocupante. “Não sobra água nas baías para o gado beber”, diz.
O fato é que, a previsão de seca severa no Pantanal, para este ano, nas regiões próximas a Ladário, como Abobral, Miranda, Nabileque e Porto Murtinho, pode se estender para outras áreas. Mais que isso, os pesquisadores acreditam que se inicia um outro ciclo de seca na região. O que permite essa análise é não só o registro de níveis baixos, mas também o fato já conhecido de que há alternância de anos consecutivos de cheia e de seca no Pantanal.

De 98 para cá, o índice pluviométrico abaixo do normal fez com que não só o volume dos rios baixasse, mas também das baías. O rio Cuiabá, principal tributário do rio Paraguai, vem registrando, desde 98, os menores níveis de sua série histórica – que equivale a medições entre 1933 e 2000. O nível do Paraguai em Cáceres, que fica mais ao Norte de Ladário, em Mato Grosso, em 1999 foi o menor desde 1973, quando se iniciou o ciclo de cheias.(Agência Brasil)