Perfil do consumidor induz tipo de embalagem

O Brasil produz entre 240 e 300 mil toneladas de resíduos sólidos por dia, dos quais 100 mil toneladas são de lixo domiciliar, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desses resíduos domésticos, entre 60 e 65% são restos alimentares e 25 a 30% são resíduos de embalagens.

Essa montanha de sacos, caixas, garrafas, latas, entre outros, colabora para a superlotação dos aterros e lixões, para a sujeira de nossas ruas e rios e também para um maior consumo de energia no país.

Reduzir o impacto ambiental das embalagens é uma preocupação da indústria, mas o setor tende a seguir a demanda do consumidor, que tem o poder de escolha entre o que é mais ou menos poluente. Na opinião do presidente da Associação Brasileira de Embalagem (ABRE), Sérgio Haberfeld, “não existe embalagem melhor para o meio ambiente, pois só o fato de existir já é ruim. O que acontece é que algumas tem sido mais ou menos recicladas”, diz.

Haberfeld reconhece, porém, que alguns países europeus já estão preocupados com a questão do acúmulo de lixo, como a Alemanha, onde existe uma tendência de diminuir ao máximo o volume de lixo por indivíduo. Com isso, uma das alternativas adotadas tem sido diminuir a sobre-embalagem dos produtos. Um exemplo, são as pastas de dentes em embalagens plásticas que ficam em pé e dispensam a caixa de papelão.

“Nos Estados Unidos, ao contrário, a preocupação é com a segurança e limpeza do produto, o que induz à maior proteção. Essa tendência individualista tem sido mais seguida no Brasil, pois nosso público é mais ligado aos Estados Unidos”, disse o presidente da ABRE.

Entre os materiais, no entanto, Haberfeld acha que a escolha é relativa. “A tendência na Alemanha, por exemplo, tem sido pela embalagem que consume menos energia, da produção ao descarte final. Nesse sentido, cada caso é um caso. Por exemplo, o vidro é reciclável, mas é preciso ir buscar de caminhão, que consome energia. Além disso, retirar a proteção de embalagens é viável num país pequeno, como a Alemanha, mas não no Brasil, onde a distribuição é mais complicada e pode gerar perdas, que também representam mais lixo”.

Descartáveis X retornáveis

Para a bióloga Cristina Bonfiglioli, do Greenpeace, embalagens ambientalmente corretas são as não-tóxicas e que possam ser mais recicladas, como papel e vidro. “No entanto, o ideal seria reverter a moda de embalagens descartáveis e dar preferência para as retornáveis”, acredita.

Bonfiglioli acredita que as piores embalagens são as plásticas, porque vêm do petróleo e colaboram para o efeito estufa. Já o alumínio, “gasta muita energia na produção e só tem um alto índice de reciclagem no Brasil porque temos muita gente fora do mercado de trabalho, que vive de catar latinha”, diz a ambientalista.

Para a bióloga, a idéia de reciclagem, embora positiva, pode levar ao estímulo de coisas descartáveis. “No Brasil, mesmo que o consumidor separe seu lixo, não há garantia de que tudo será reciclado, pois não temos indústria para reciclar todo tipo de material. Além disso, não temos tecnolologia para reciclar muitos tipos de plásticos”.
Na medida em que cresça a procura por embalagens menos poluidores, ou menos energéticas, a tendência, segundo o presidente da ABRE, é cada produtor começar a divulgar as vantagens de seu produto. “Fabricantes de embalagens de plásticos flexíveis, por exemplo, vão mostrar que têm um produto muito leve”.

Nesse quesito, as indústrias de papel saíram na frente no Brasil e, através da Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa), realizam uma campanha de incentivo ao uso de papelcartão, como uma embalagem de baixo impacto ambiental, por ser biodegradável, reciclável e produzida a partir de recursos naturais renováveis.

Mas deixar a escolha só na mão do consumidor, para Cristina Bonfiglioli, também não é a melhor solução. “Na Holanda, cada cidadão tem uma cota de lixo que pode produzir. Quem ultrapassa o limite tem que pagar uma taxa à prefeitura. Com isso, as pessoas procuram produtos com o mínimo descarte possível. A maior parte das embalagens é de papel ou vidro e há pouquíssimas de plástico”, conta.(Estadão)