Plano buscará preservar o peixe-boi

Apesar de protegido por duas leis — de Proteção à Fauna e de Crimes Ambientais — o peixe-boi amazônico ( Trichechus inunguis ) é um dos mamíferos aquáticos mais caçados do mundo e está entre as espécies mais ameaçadas do Brasil.

Para ajudar na preservação do animal, pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (Centro Peixe-Boi), na ilha de Itamaracá, em Pernambuco, fizeram um levantamento da sua atual situação. Enviados para a sede do Ibama, em Brasília, os dados servirão para a elaboração de um plano estratégico de conservação do peixe-boi amazônico, a exemplo do que já ocorre no Nordeste com o peixe-boi marinho ( Trichechus manatus ).

Tradicionalmente consumido pela população amazônica, o peixe-boi torna-se presa fácil dos caçadores durante o verão, quando fica aprisionado em lagos formados com as vazantes dos rios. A pesquisa realizada no Amazonas computou a captura de 2.181 animais pela população local e acusou uma média de 22 animais exterminados por caçador.

Como se isso não bastasse, só em 1999, último ano de execução da chamada Operação Vazante, o Ibama registrou 600 carcaças de animais recém-caçados. Segundo Régis Pinto de Lima, gerente do centro de pesquisas, o mamífero, que antes aparecia de forma contínua nos rios da Região Norte, já não é mais visto em pelo menos dez localidades do Amazonas, onde sua presença hoje não supera seis indivíduos por comunidade.

De acordo com a bióloga Fábia de Oliveira Luna, em média, aos 13 anos os caboclos amazonenses começam a caçar o mamífero, embora 97% da população ribeirinha saibam das restrições impostas pela legislação. Pelo menos 90% das pessoas consultadas já comeram peixe-boi.

— Eles caçam o animal e dividem a carne com os vizinhos, estabelecendo-se assim, uma relação de silenciosa cumplicidade — relata Fábia.

Ela participou de uma expedição de 71 dias no Amazonas, ao longo da qual foram percorridos mais de seis mil quilômetros, com 236 localidades visitadas. Navegou-se pelos rios Negro, Solimões e Amazonas, por 11 afluentes e 15 lagos. Durante a viagem, 353 pessoas foram ouvidas.

O Grupo de Trabalho de Especialistas em Mamíferos Aquáticos classifica o peixe-boi da Amazônia como vulnerável, mas para que o animal seja considerado espécie em perigo pelas categorias da União Internacional de Conservação da Natureza seria necessário que toda a área de ocorrência fosse levantada, com extensão da pesquisa ao restante da Bacia Amazônica. Os pesquisadores do Centro Peixe-Boi/Ibama enviaram relatório sobre a espécie para o Fundo Nacional do Meio Ambiente. O objetivo é angariar recursos para dar início ao trabalho de preservação dos rebanhos que restam na Região Norte. (O Globo)