Geotecnologia ajuda na preservação ambiental

A tecnologia de geoinformação tem tido um papel cada vez mais importante em projetos voltados para monitoramento e gerenciamento de recursos naturais, em projetos governamentais e de entidades ambientalistas.

Estas últimas, porém, têm demonstrado maior agilidade em conseguir resultados práticos e aproximar os avanços tecnológicos das populações locais. O Vale do Ribeira, maior remanescente contínuo de Mata Atlântica no Brasil – localizado entre as regiões metropolitanas de São Paulo e Curitiba – é um exemplo, com o mapeamento sendo usado em projetos voltados para reflorestamento e proteção de populações tradicionais.

Apresentado durante o GeoBrasil 2001 – Congresso Internacional de Geoinformação, que acontece até sexta-feira, em São Paulo, o programa de Ação Contra o Aquecimento Global desenvolvido pela SPVS – Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem pretende retirar da atmosfera, em 40 anos, 2,5 milhões de toneladas de carbono, através de reflorestamento e desenvolvimento sustentado no litoral norte do Paraná.

O projeto é patrocinado pelas empresas norte-americanas General Motors e American Electric Power (maior produtora de energia dos EUA), que vão investir nesse período US$ 15,4 milhões. Grandes emissoras de gases do efeito-estufa, essas empresas esperam recuperar o investimento com a adoção futura dos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo, pelo qual poderão compensar parte de suas emissões pelo carbono seqüestrado no projeto.

Segundo Alexandra Andrade, diretora Técnica da SPVS, foram identificadas duas áreas, na APA – Área de Proteção Ambiental de Guaraqueçaba, bastante degradadas pela criação de búfalos, onde a entidade ambientalista pretende criar Reservas Particulares do Patrimônio Natural e promover a restauração florestal.

Já foram comprados 7 mil hectares (ha) na Serra do Itaqui e metade dos 12 mil ha pretendidos na bacia do Rio Cachoeira. Além de prospectar as áreas degradadas e ameaçadas de desmatamento, o sistema de informações geográficas permite planejar o manejo das reservas – o que plantar e onde – e acompanhar as áreas de influência, onde serão incentivadas atividades sustentáveis.

No lado paulista do Vale do Ribeira, o ISA – Instituto Socioambiental tem utilizado a geotecnologia para apoiar comunidades quilombolas no reconhecimento de seus territórios. Através do Diagnóstico Socioambiental do Vale do Ribeira, o ISA mapeou as comunidades quilombolas, mostrou a sobreposição de seus territórios com as unidades de conservação existentes e provou que, onde elas estão presentes, o desmatamento é menor.

Além disso, realizou, em parceria com a Unicamp, um estudo mostrando os impactos sobre essas comunidades da implantação das quatro usinas hidrelétricas planejadas para a região.

“Até então, diziam para eles que não sofreriam impacto algum. Os estudos indicaram, porém, que grande parte das comunidades perderiam território, seriam fragmentadas e, pelo menos duas, desapareceriam“, diz João Paulo Capobianco, coordenador do ISA. Esse tipo de trabalho tem colaborado para a conscientização dessas comunidades, que hoje lutam para garantir seu direito territorial, reconhecido pela Constituição de 1988.

“Quando começamos o mapeamento, em 1997, eram 12 comunidades identificadas, na metade de 1998 eram 24 e, no final de 1998, esse número era 54. O que acontecia é que essas pessoas negavam sua condição de descendentes de escravos, para evitar a discriminação, e agora reconhecem sua identidade cultural”, conta o coordenador do ISA.

Um projeto piloto em andamento pelo Instituto é o zoneamento ecológico-econômico do quilombo de Ivaporunduva, no município de Eldorado. “Estamos associando a tecnologia com o conhecimento tradicional para conseguir maior produtividade das culturas já desenvolvidas e recuperação de áreas que não estão sendo usadas”, diz Capobianco.

Controle governamental

Ainda em desenvolvimento, o Sistema de Vigilância Ambiental da Amazônia do Sivam deverá ser o maior projeto de uso de geotecnologias na área ambiental no Brasil.

Segundo Cristina Mattos, da Amazon Tech, dos Estado Unidos, que trabalha no Programa de Absorção de Tecnologia do projeto, o sistema será uma caixa de ferramentas com 54 produtos, entre mapas e relatórios, e 59 imagens de computador, prontos para serem combinados e produzirem informações como mapeamento de áreas inundadas, desflorestadas ou focos de incêndio, além de realizar simulação de fenômenos ambientais da Amazônia e suas conseqüências.

Previsto para entrar em operação em meados de 2002, o sistema não tem ainda, conforme Mattos, definições prontas de quais os serviços que vai operar e nem de quem terá acesso às informações.

Também com previsão de operação para meados de 2002, o Sistema Geo-Referenciado de Informações voltados para os recursos hídricos no Estado de São Paulo, do DAEE -Departamento de Águas e Energia Elétrica, deverá ser utilizado para o gerenciamento e fiscalização dos múltiplos usos da água no Estado.

“A principal finalidade será administrar a outorga de direito de uso da água, assim como mediar os conflitos existentes”, diz o Flávio Sammarco, da Universidade de São Paulo.

A base cartográfica utilizada será a do IBGE, na escala 1:50.000, está sendo implantada pelo governo do Estado e deverá cobrir todas as bacias estaduais (Alto e Médio Tietê, Piracicaba, Baixada Santista, vales do Paraíba e do Ribeira de Iguape. Um projeto-piloto será desenvolvido no Vale do Paraíba.
(Estadão Online)