Cientistas querem depositar gás carbônico no mar

Combater o aquecimento global pode não ser muito diferente de fabricar um refrigerante. Cientistas ao redor do mundo começam a se dar conta de que o oceano pode ser um bom lugar para armazenar o gás carbônico emitido pela queima de combustíveis fósseis.

Um estudo que será publicado na edição de julho da revista especializada “Geophysical Research Letters” (www.agu.org/grl/) propõe a execução de algo desse tipo no mar da Noruega.

E esse é apenas um de vários trabalhos que têm especulado sobre a possibilidade de usar o oceano, que ocupa 70% da superfície da Terra, como armazenador de gás carbônico (também conhecido como dióxido de carbono, ou simplesmente pela fórmula química CO2), o principal responsável pelo efeito estufa -o aquecimento da atmosfera terrestre pela presença de um cobertor de gases que impede que a radiação solar escape para o espaço.

A idéia, na verdade, é tão velha quanto o mundo. Os oceanos da Terra já cumprem naturalmente um papel de absorção do gás carbônico presente na atmosfera. Só que, deixado ao sabor da natureza, o processo é muito lento.

A primeira proposta no sentido de acelerar a ação desse mecanismo natural foi feita pelo cientista italiano Cesare Marchetti, em 1977. Sua sugestão era coletar, comprimir e converter para o estado líquido o CO2 emitido por usinas movidas a carvão, óleo e gás e então injetá-lo, usando tubulações, no fundo do oceano.

Ele concluiu que um bom local para o procedimento era o estreito de Gibraltar. Lá, pela salinidade e pela densidade da água que flui do mar Mediterrâneo, o CO2 seria diluído por todo o Atlântico.

“Após esse estudo pioneiro, a atividade científica nessa área aumentou, no início dos anos 90. Hoje, os maiores trabalhos são conduzidos em Japão, Canadá, EUA, Austrália e Noruega”, relata Helge Drange, um dos autores que propõem a adoção do procedimento em águas norueguesas.

Os bacalhaus que se cuidem

Os cálculos feitos por Drange e seus colegas mostraram que o oceano absorveria mais de 99% do CO2 emitido por uma usina termelétrica movida a gás com capacidade de 220 MW -contanto que o dióxido de carbono fosse liberado no mar da Noruega a 950 metros de profundidade.

Segundo o pesquisador, essa única fonte de gás carbônico produziria um efeito pequeno no ambiente marinho -a água ficaria ligeiramente mais ácida, por conta da combinação entre o hidrogênio da água e o CO2 injetado.

No estudo, ele diz que a injeção proposta não causaria danos significativos, mas não garante nada caso outros gostem da idéia e comecem a liberar grandes quantidades de gás carbônico, e em vários pontos diferentes. “Essa questão só pode ser respondida por cientistas trabalhando com o biota [conjunto de seres vivos” marinho”, afirma Drange.

“As maiores preocupações expressas até agora se relacionam ao impacto ambiental de estratégias como essa”, diz Howard Herzog, cientista do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) que está envolvido em um teste de campo de armazenagem de CO2 nas águas do Havaí (mais informações podem ser encontradas em www.co2experiment.org).

Esses testes, originalmente programados para este ano na ilha americana, só poderão ser realizados no ano que vem. “Estamos esperando para obter todas as autorizações. Não sabemos quando o processo será concluído. O mais cedo que poderemos fazer o experimento é janeiro de 2002”, diz.

Apesar do perigo potencial para o ambiente marinho, vale lembrar que na atmosfera o problema é muito maior. “O oceano já possui aproximadamente 40 trilhões de toneladas de carbono, comparadas a 750 bilhões na atmosfera e 2,2 trilhões na biosfera. A quantidade de carbono que dobraria a concentração atmosférica mudaria a concentração oceânica em menos de 2%”, afirma Herzog.

Ajuda, mas não resolve

A última coisa que Drange quer é que as pessoas, ao saberem de seu estudo, pensem é que o presidente norte-americano George W. Bush fez muito bem ao chutar o Protocolo de Kyoto, que prevê redução de 5,2% (em relação aos níveis de 1990) nas emissões de gases-estufa para os países industrializados, com prazo final estipulado entre 2010 e 2012.

“Um acordo internacional como o Protocolo de Kyoto é absolutamente necessário para reduzir o atual aumento de gases-estufa na atmosfera. A armazenagem de CO2 no oceano não vai salvar o mundo, mas tem o potencial -junto com outras medidas- para reduzir os efeitos do aquecimento global”, diz Drange.

“Não há uma única solução definitiva”, diz Herzog. “A solução será feita de muitas partes, incluindo sequestro [de carbono”, eficiência [no processamento de combustíveis fósseis” e energia não-derivada de carbono. O oceano pode ser uma dessas partes.”

Experimentos ligados ao mar da Noruega ainda não foram planejados. “Esses testes carecem de financiamento, por isso é difícil dizer quando eles vão ser conduzidos”, afirma Drange. A análise feita por ele supõe números muito maiores do que os que serão observados nos testes do Havaí.(Folha On Line)