COBERTURA EM FIBROCIMENTO VEGETAL

Argamassa de escória de alto-forno reforçada com fibras vegetais de sisal, eucalipto e bananeira. Essa combinação, estudada desde 1992 por pesquisadores do Grupo de Construções Rurais e Ambiência, da USP – Universidade de São Paulo de Pirassununga, resultou em uma tecnologia para produção de telhas.

Com formato semelhante à produzida em escala comercial, conhecida como telha romana (50 centímetros de comprimento por 25 centímetros de largura), a nova cobertura à base de fibras e escória foi desenvolvida para apresentar um material compatível com a habitação popular.

Integrado ao programa Habitare, da FINEP, o projeto “Sistemas de Cobertura para Construções de Baixo Custo: Uso de Fibras Vegetais e de Outros Resíduos Agro-Industriais” leva em conta o fato de que, para redução dos custos de habitações de interesse social, a ação na cobertura é essencial (em uma habitações popular, o custo do telhado pode chegar a 20% do total da obra).

De acordo com os pesquisadores, somente no sertão semi-árido baiano, em torno de 30 mil toneladas de resíduos de fibras poderiam ser reaproveitados na produção da nova cobertura. Pesquisas anteriores já vinham mostrando que o emprego de fibras na fabricação de componentes da construção tem alto potencial, mas o processo ainda apresenta desafios. Um deles é o processo de petrificação a que as fibras são submetidas na mistura com o cimento convencional.

“O fenômeno vai se pronunciando ao longo da vida útil do componente e o desempenho mecânico fica comprometido em torno de dois anos”, explica o professor Holmer Savastano Jr., coordenador do estudo.

A solução técnica apresentada pelo Grupo de Construções Rurais e Ambiência foi a substituição do cimento pela escória de alto-forno (um resíduo da produção do ferro gusa). Além de confirmar o caráter ecológico dos processos de reaproveitamento de resíduos na construção civil, o emprego da escória, que proporciona um meio menos alcalino do que o cimento, evita a petrificação do material vegetal usado na produção das telhas.

Mais de 200 amostras produzidas com o novo fibrocimento já foram encaminhadas para
testes de eficiência do produto, como segurança estrutural e ao fogo, resistência ao impacto, isolamento térmico e acústico, além de ensaios de envelhecimento acelerado para avaliação da durabilidade.

Centenas de amostras já foram produzidas com o novo fibrocimento para testes de eficiência, segurança estrutural e ao fogo. Segundo o coordenador, em países desenvolvidos, o problema da petrificação foi contornado com o uso de equipamentos como a autoclave, que funciona a altas temperaturas e condições especiais de pressão, e sílica ativada, um material bem fino e reativo com o cimento. Com esse processo, os fabricantes chegam a dar garantia de 50 anos para produtos de cimento com fibra celulósica nos Estados Unidos. Mas como ele encareceria o produto, foi descartado no Brasil.

Do ponto de vista do emprego da fibra, as novas telhas encontram matéria-prima em abundância para sua produção. A equipe de pesquisadores percorreu algumas regiões entre os estados do Pará e Paraná onde observou as atividades de cultivo, extração e processamento de fibras vegetais. “No semi-árido baiano encontramos uma cooperativa que, depois de retirar a fibra do sisal, descarta algo em torno de 30 mil toneladas por ano de resíduos de fibras que podem ser aproveitados. No Espírito Santo, uma indústria de celulose para papel deixa cerca de 17 mil toneladas/ano do resíduo de celulose”, informa o professor.

Segundo ele, na região do Vale do Ribeira, em São Paulo, as plantações de banana podem produzir cerca de 95 mil toneladas anuais de fibra. Entre os desafios futuros do estudo estão a melhoria do processo de cura da telha. Além disso, ainda que a produção em maior escala dispense grandes estruturas e mão-de-obra especializada, o que significa baixos investimentos, o controle de qualidade deve garantir o desempenho físico e mecânico da nova telha.

O uso eficiente desta tecnologia depende também de que sejam respeitados aspectos como o desenvolvimento sustentado do processo de obtenção das fibras e de outros resíduos, e verificado o custo compatível do componente final, principalmente no que se refere à energia e ao transporte.

O Grupo de Grupo de Construções Rurais e Ambiência tem como colaboradores o Departamento de Construção Civil da Escola Politécnica, o Departamento de Ciências Florestais da Escola Superior de Agricultura Luís de Queiroz e pesquisadores da Escola de Engenharia da USP de São Carlos. (USP- São Carlos)

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