AÇÃO PREDATÓRIA DE PESQUEIROS DE SC PREJUDICA LITORAL PARANAENSE

Biólogos, ativistas ambientais, pescadores e quem vive do turismo no litoral paranaense atestam: as águas territoriais do estado viraram um mar sem lei. Os responsáveis, segundo eles, são os donos de grandes embarcações pesqueiras de São Paulo e Santa Catarina, que desrespeitam a legislação ambiental para voltar a seus estados abarrotados de peixes.

Esses piratas modernos contam com a ajuda involuntária do Ibama – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, responsável pela fiscalização. O órgão só tem 10 pessoas para vigiar uma costa de 100 quilômetros de extensão com mangues e reservas de Mata Atlântica.

A indústria da pesca de Santa Catarina, a que mais prejudica os pescadores artesanais do Paraná, onde não há empresas que beneficiam produtos marinhos, não mede esforços para deixar a concorrência para trás. Seus barcos são equipados com sonares que varrem as profundezas em busca de cardumes. Os aparelhos foram muito bem empregados, por exemplo, no período de pesca da tainha, em julho. Num só dia, apenas uma das 60 traineiras que estavam no litoral vindas de Santa Catarina conseguiu pescar 130 toneladas do peixe.

As técnicas avançadas de pesca incluem até métodos de demolição subaquática. Só neste ano, o Ibama recebeu três denúncias. O maior problema é que as explosões matam alevinos e causam desequilíbrios ambientais que afetam toda a fauna marítima. “Pegá-los é muito difícil, mas estamos fazendo operações freqüentes”, afirma o chefe da fiscalização do Ibama no estado, Paulo Roberto Matoso Ditter.

Mortos, os peixes bóiam na superfície da água, tornando mais fácil a seleção das espécies que vão render negócios lucrativos com atravessadores de Itajaí, cidade portuária catarinense, de onde saem a maior parte das traineiras que exploram as águas do litoral paranaense. O peixe vai para mercados e donos de restaurantes do litoral de Santa Catarina.

O cardápio desses estabelecimentos inclui até espécies ameaçadas de extinção e que estão com a caça proibida, como o Mero. No mês passado, mergulhadores de um barco de Florianópolis foram vistos usando arpões para caçar um casal de meros. Os peixes eram a atração de recifes artificiais instalados pela Universidade Federal do Paraná em Praia de Leste. Durante a ocasião, um dos tripulantes do barco, ao ser advertido pelo pessoal de uma embarcação que praticava mergulho, apontou um revólver e expulsou os mergulhadores da região. A testemunha que viu a cena não quer depor no Ibama. “A cada ano eu cruzo com essa gente violenta umas dez vezes. Não posso me arriscar porque lá no mar é cada um por si.”

Concorrência desleal

Santa Catarina concentra a maior parte da indústria pesqueira do país, com 20% de participação. Logo atrás vem São Paulo, com 18%, e Rio Grande do Sul com 9%, segundo dados do Ministério da Agricultura. “Muito do que as indústrias catarinenses faturam foi pescado no litoral do Paraná, que acaba não ganhando nada com isso”, lembra o presidente da Associação dos Pescadores de Pontal do Paraná, Rubens Marcelino da Veiga.
(Fonte: Dimitri do Valle – Gazeta do Povo)