EM ITINGA/MG POPULAÇÃO FAZ PENITÊNCIA PARA CHAMAR CHUVA

Em pleno mês de dezembro, enquanto em outras regiões do País o problema é o excesso de chuvas, no Vale do Jequitinhonha a população recorre à fé, fazendo penitência para cair água do céu. O sacrifício é feito por moradores de Itinga, de 13,2 mil habitantes, distante 702 quilômetros de Belo Horizonte (MG), um dos municípios mais pobres do vale, que continua sofrendo com os problemas com a estiagem.

A área urbana do município é cortada pelo Rio Jequitinhonha, o que não alivia o sofrimento da população. Guiados pela devoção, os moradores, principalmente os mais humildes, acreditam que, somente fazendo sacrifícios, poderão ser atendidos pela vontade divina. O grupo sai da Igreja Matriz de Santo Antônio e percorre uma área ao redor da cidade. O trajeto é denominado pelos fiéis como Caminho do Senhor da Boa Vida.

O ritual envolve mulheres e crianças, que carregam garrafas baldes cheios de água. As mulheres também levam flores. Os participantes ainda carregam pedras e ramos. À frente vão as imagens de santos. Normalmente, levam imagens do Senhor Bom Jesus, Santo Antônio e São Miguel. No final, a água é derramada sobre as imagens dos santos em frente a Igreja, onde também são depositadas pedras e ramos.

“A gente faz a penitência durante nove dias seguidos. Depois a chuva vem”, diz a aposentada Maria Dutra dos Santos, de 69 anos. “Todos os anos, fazemos isso e nunca falha”, acrescenta. A aposentada relata que participa do ritual há mais de 50 anos, seguindo uma tradição dos seus antepassados. A penitência é feita com o sol a pino: inicia ao meio-dia e termina por volta das 13h30. Para ela, o martírio é maior, pois anda com os pés descalços. Tem hora que a temperatura esquenta tanto que acho que o mundo vai acabar, afirma a moradora.

Ao longo de 2002, o Vale do Jequitinhonha enfrentou cerca de oito meses de seca. Foram poucas chuvas em outubro e no começo de novembro, sendo o suficiente para animar os pequenos agricultores, que plantaram as suas roças de feijão. Mas, ainda em meados de novembro, o sol retornou, causando destruição. “Plantamos, mas não salvou nada”, reclama Maria Dutra, matriarca de uma família de cinco filhos e três netos. Ele fez a penitência, pedindo chuva para ter condições de replantar uma lavoura de dois hectares.
(Estaminas)