FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2003: OFICINA VAI DEBATER O PENSAMENTO ECOLÓGICO NA HISTÓRIA DO BRASIL

Há séculos, quando os primeiros colonizadores aportaram nas praias
brasileiras, vislumbraram uma natureza prodigiosa. Florestas cobriam tamanhas extensões que pareciam não ter fim. Rios, lagos e milhares de espécies de aves, peixes e outros animais enchiam os olhos ávidos dos navegantes.

Para estes, tratava-se de mais uma oportunidade para abarrotar de riquezas os cofres da Coroa, e os próprios bolsos. Rezada a primeira missa, partiram para a “colonização”, que consistia no uso de ferro e fogo e de mão-de-obra escravizada para obtenção do máximo de bens no menor tempo possível, degradando terras, águas e matas. Assim teve início o processo destrutivo que exauriu parcela significativa do patrimônio natural do
Brasil. E esse pensamento persiste até os dias atuais, quando muitos ainda
vêem na natureza uma fonte inesgotável de recursos.

Com o objetivo de divulgar e de discutir as raízes do pensamento político e da crítica ambiental em nosso país, o Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (NEJ/RS) promove, no dia 24 de janeiro, dentro das atividades do 3º Fórum Social Mundial, a oficina Visão Ecológica da
História do Brasil: Repensar o Passado para Transformar o Futuro.

O evento contará com as presenças do doutor em ciência política José Augusto Pádua e
do jornalista Eduardo Bueno, o Peninha, e se realizará entre 8h30min e 12h,
na Pontifícia Universidade Católica (Sala 230, Prédio 8 / Faculdade de Letras), na Avenida Ipiranga, 6681, em Porto Alegre.

Para Pádua, “a destruição ambiental no Brasil não é obra do acaso, mas fruto de um modelo perverso de ocupação do território fundado no passado colonial e ainda hoje muito presente”. Tratava-se de um modelo
baseado no mito da abundância eterna dos recursos naturais, no desprezo
pela natureza tropical, no domínio de formas servis e escravistas de
trabalho e na ocupação elitista e monocultural do espaço. “Um modelo que,
em poucas palavras, nasceu a partir do desrespeito pela natureza e pelo
trabalho”, explica.

Em sua obra Um Sopro de Destruição, ele traz à tona o fato de que muito
antes do que se costuma imaginar, já se criticava no Brasil a destruição do
ambiente natural. Nomes como José Bonifácio e Joaquim Nabuco, entre vários outros, dedicaram-se ao tema e perceberam que a superação das práticas devastadoras passava pela implementação de reformas socioeconômicas profundas, rompendo com o legado do colonialismo: o tripé
escravidão-latifúndio-monocultura.

Analisando cerca de 150 textos da época,
produzidos por mais de 50 autores, Pádua reconstitui pela primeira vez a crítica ambiental nos séculos XVIII e XIX, esquecida na história do pensamento social brasileiro.

O jornalista Eduardo Bueno trará sua visão sobre o processo de Colonização do Brasil, no qual se aprofundou durante a pesquisa para a série Terra Brasilis e outras obras do gênero. Em Pau-Brasil, trata da exploração da árvore que empresta o nome ao país, desde o Século XVI, com enfoque
botânico, econômico e político, destacando a ação dos contrabandistas franceses e o uso da cor vermelha na moda européia, até as tentativas atuais de preservação da espécie.

Logo, a crítica da destruição ambiental no Brasil e a busca de uma nova relação com a terra, mais benéfica e justa do ponto de vista social e ecológico, não é um fenômeno recente e importado, possui sim raízes
profundas na cultura e no pensamento brasileiros.

“Transformar a herança predatória que herdamos do passado colonial, a partir de uma nova ética de cuidado pela natureza e pelo ser humano, é um aspecto central para a
construção de um novo país”, ressalta Pádua.(ABEMA)

Sobre os autores

José Augusto Pádua é doutor em ciência política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e professor-adjunto do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ). É autor de livros como Um Sopro de Destruição Pensamento Político e Crítica Ambiental no Brasil Escravista, O que É Ecologia, Ecologia e Política no Brasil e de vários artigos em livros, periódicos científicos, revistas e jornais publicados dentro e fora
do Brasil.

Eduardo Bueno é jornalista e tem se dedicado nos últimos anos ao estudo da
história brasileira. Figurou entre 1997 e 1998 como um dos autores mais vendidos e lidos no país com a coleção Terra Brasilis, que traz títulos como A Viagem do Descobrimento, Capitães do Brasil e Náufragos, Traficantes e Degredados. Suas obras mais recentes são Brasil: uma História A Incrível Saga de um País e Pau Brasil, que traz um pouco do modelo histórico de exploração da árvore que deu nome ao país.