MOVIMENTO AMBIENTALISTA PERDE ARY PÁRA-RAIOS

Era 31 de agosto de 1995 e o plenário do Conama – Conselho Nacional de Meio Ambiente estava lotado discutindo alterações substanciais que o governo federal pretendia promover no decreto 750 que estabelece a proteção da Mata Atlântica. Os ambientalistas, presentes em peso, aguardavam ansiosos o desfecho da polêmica.

Ao mesmo tempo, na Câmara dos Deputados o PL 3825/92, que também trata da Mata Atlântica era aprovado na Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias. Quando a notícia chegou ao plenário do Conama, pela voz do então secretário de Meio Ambiente de São Paulo, Fábio Feldmann, o Esquadrão da Vida, liderado por Ary Pára-Raios, entrou no auditório nº 1 do Ibama – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis entoando a canção Bichos Escrotos, da banda Titãs. Quem estava lá não esquece. Foi apoteótico.

Essa foi apenas uma das muitas vezes em que Ary, sempre à frente de seu Esquadrão, colocou sua arte a serviço do movimento ambientalista. Nos últimos anos, no auge da polêmica em torno do Código Florestal não foram poucas as manifestações nas quais a presença dele fez a diferença.

Desde 1989, quando criou o jornal Viva Alternativa, Ary incluiu o meio ambiente entre os focos de sua militância. Na época da Rio-92, foi uma peça fundamental na mobilização da sociedade civil. Muriel Saragoussi, atual Diretora Executiva do Conama, conheceu e trabalhou com Ary nessa época. “Ele era uma pessoa maravilhosa”, diz emocionada.

Para Miriam Prochnow, da Associação de Preservação do Meio Ambiente do Alto Vale do Itajaí (Apremavi – SC), trabalhar com o Ary era algo muito especial. A sua alegria irreverente injetava entusiasmo nos defensores do bem e paralisava os hipócritas. “Ary, que você possa levar para as outras esferas esta alegria que sempre nos fez sentir”.

Sérgio Henrique Guimarães, do ICV – Instituto Centro Vida, de Cuiabá, Mato Grosso, lembra que conheceu Ary durante o encontro das entidades ambientalistas do Centro-Oeste, preparatório para a Rio-92. “Ary era um radical bem humorado e sua vertente palhaço estava sempre presente. Sua forma de fazer crítica era sempre bem humorada”. Segundo ele, Ary não gostava de facilidades, sempre trilhava o caminho mais difícil.

“O Ary era a alma das coisas que fazíamos juntos. Contraditoriamente, o espírito de palhaço dele sempre deu uma enorme seriedade às mobilizações que fizemos”, diz Mário Mantovani, da Fundação SOS Mata Atlântica. Mantovani lembra que não promovia nenhuma manifestação em Brasília sem a ajuda de Ary.

Ary José de Oliveira. Ary Pára-Raios. Paranaense de Sertanópolis, morava em Brasília desde 1975. Artista popular, criou em 1976 o Esquadrão da Vida, num claro protesto contra o Esquadrão da Morte. Montou o espetáculo O Bicho Homem e Outros Bichos, que ficou em cartaz de 1993 a 2000, e promovia apresentações nas praças e esquinas da capital do Brasil.

Ele morreu de câncer, aos 63 anos. A doença foi diagnosticada tardiamente, em junho do ano passado. Ary deixa sete filhos Tati, Tiana, João, Caetano, Juca, Ico e Maíra, sua herdeira artística. (ISA – Instituto Socioambiental)