Apresentado crocodilo que viveu em MG há 70 milhões de anos

Um terrível crocodilo, que possivelmente ocupava o topo da cadeia alimentar, viveu em Uberaba (MG) 70 milhões de anos atrás, no período Cretáceo. A descoberta dos fósseis do Uberabasuchus terrificus reafirma a hipótese de pesquisadores sobre a existência do supercontinente Gondwana, que reunia América do Sul, Antártida, África, Índia e Austrália e que começou a se separar há 140 milhões de anos. Isto porque o parente mais próximo do crocodilomorfo mineiro foi encontrado em Madagáscar, na África.

“Foram encontrados fósseis de parentes próximos do Uberabasuchus no sul da Patagônia argentina e em Madagáscar. Isso é um indicativo de que eles tiveram a possibilidade de se dispersarem ao longo desse continente. Se a Antártida é hoje uma geleira eterna, 70 milhões de anos atrás o clima era parecido com o da América do Sul”, diz o geólogo da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ismar de Souza Carvalho, que nesta quarta-feira (16) apresentou uma réplica em tamanho natural e o crânio do crocodilomorfo (parente muito distante dos crocodilos de hoje).

O estudo sobre o fóssil – um dos mais completos já encontrados – foi publicado na revista japonesa “Gondwana Research”, que se dedica a publicar estudos sobre a separação dos continentes. O Uberabasuchus tinha cerca de 2,5 metros de comprimento e pesava 300 quilos. O bicho alimentava-se, provavelmente, de tartarugas (seus dentes eram tão fortes que tinham a capacidade de quebrar os cascos), filhotes de dinossauros e da sua própria espécie.

O terrível crocodilo de Uberaba, significado de Uberabasuchus terrificus, não tem semelhanças com os crocodilos dos dias atuais. Por ter pernas eretas – os de hoje têm as pernas flexionadas -, ele era capaz de se deslocar por grandes distâncias. A narina é frontal, como a de um cão, o que leva os pesquisadores a deduzirem que o crocodilomorfo era terrestre. Os crocodilos de hoje tem narina lateral, o que permite que eles fiquem com o corpo submerso por muito tempo e somente parte da cabeça de fora, à espera da presa.

Descoberta – O Centro de Pesquisas Paleontológicas Llewellyn Ivor Price, em Peirópolis (MG), mantém equipes permanentes de coleta de fósseis. Os grupos atuam de maio a outubro, período de seca. Numa dessas escavações, em 2000, o fóssil do Uberabasuchus terrificus foi descoberto praticamente completo, com as articulações dos ossos preservadas. “É possível que ele tenha sucumbido ao clima árido, seguido de chuvas torrenciais, e acabou sepultado, sem que os ossos tenham sido espalhados”, disse o paleontólogo Leonardo Avilla.

A partir da descoberta do crocodilo, os pesquisadores puderam ainda organizar as espécies de crocodilomorfos que viveram nesse continente chamado Gondwana no limiar da extinção em massa. A partir de modelos matemáticos e comparações entre as espécies, os pesquisadores identificaram 12 novos grupos desses animais, além dos três já descritos anteriormente.

O Uberabasuchus estava entre os mais evoluídos. “Esse trabalho servirá de base para toda a comunidade científica internacional. Será a bíblia de estudiosos dos crocodilomorfos”, afirma o diretor do Centro de Pesquisas Paleontológicas, Luiz Carlos Borges Ribeiro. (Clarissa Thomé/Estadão Online)