Autoridades suspeitam de mais fazendeiros no caso Dorothy

Mesmo depois da confissão de dois dos quatro acusados da morte da missionária Dorothy Stang, ocorrida há 11 dias em Anapu, interior do Pará, policiais, promotores e procuradores federais que estão apurando o caso abriram uma nova linha de investigação e suspeitam que outros fazendeiros da região também podem estar envolvidos com o assassinato.

Fontes das polícias Federal e Civil não descartam a possibilidade de o pagamento de R$ 50 mil aos assassinos ter sido feito por um grupo de fazendeiros e grileiros de terra do sudoeste do Pará insatisfeitos com a insistência da missionária em implantar os Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDS), modelo de reforma agrária coletiva.

Os investigadores estão intrigados com o valor pago aos assassinos diretos – R$ 50 mil -, dinheiro que o fazendeiro Vitalmiro Matos de Moura aparentemente não poderia ter em razão de suas dívidas e dificuldades de exploração da pecuária nas duas fazendas que ocupa. Apesar de suntuosas, as duas fazendas vizinhas, que são exploradas por Bida, como ele é conhecido, têm cerca de 3 mil cabeças de boi que estão sendo engordadas em sociedade com outras pessoas. Bida cedia o pasto, se responsabilizava pela engorda dos animais e depois de dois anos vendia o plantel para abate e dividia o dinheiro com os sócios.

Os depoimentos dos dois assassinos confessos não esclareceram até agora as dúvidas das polícias. Rayfran Salles, autor dos seis disparos, e Clodoaldo Batista, que acompanhou a execução, revelam a participação do intermediário Amair Feijoli da Cunha, que explorava madeira nas terras ocupadas pelo fazendeiro Bida. Nos depoimentos prestados à PF e aos delegados da Polícia Civil, ambos apontam o fazendeiro como o mandante, mas os dois não souberam dizer se outros fazendeiros da região também planejaram ou contrataram Amair Feijoli para intermediar com os pistoleiros.

Os policiais, promotores e procuradores federais estão fazendo um minucioso levantamento sobre os conflitos agrários do Sudoeste do Pará para identificar os fazendeiros que ocupam terras do Estado ou da União ilegalmente e são considerados grileiros em vários relatórios do Incra. Muitos destes fazendeiros já foram multados pelo instituto por terem grilado terras consideradas devolutas. Os investigadores também estão levantando os nomes de fazendeiros multados pelo Ibama por terem feito desmatamento ilegal na região para a formação de pasto para a criação de gado de corte. (Leonel Rocha / Estadão Online)