Polícia Federal sabia de ameaças na Reserva de Tinguá/RJ, apontam ambientalistas

Há pelo menos seis meses a exploração irregular de palmito na reserva de Tinguá, em Nova Iguaçu (RJ), é de conhecimento da Polícia Federal, no Rio de Janeiro. Com base em denúncias feitas por integrantes de organizações não-governamentais, um levantamento foi iniciado por policiais da Delemaph – Delegacia de Meio Ambiente e Patrimônio Histórico, mas foi interrompido pela mudança da equipe, realizada no fim de 2004. As denúncias caíram no vazio e não foram apuradas pela nova equipe.

De acordo com policiais federais, 90% das denúncias feitas sobre a extração de palmito se concentravam na atuação do grupo criminoso em Tinguá. Os relatos de ambientalistas dão conta de que policiais militares dariam proteção à exploração. Armados, eles se aproveitariam da própria floresta, que é de difícil acesso, para afastar policiais e inspetores do Ibama – Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis.

Em um dos casos que chegou à Polícia Federal, servidores do Ibama foram afastados a tiros da área de exploração. Os servidores contaram aos policiais que não sabiam de onde vinham os disparos. A delegacia de Meio Ambiente da Polícia Civil e a 58ª DP (Posse) também receberam informações sobre o assunto. Além da presença de policiais no grupo, PMs da região saberiam da extração e não teriam tomado qualquer providência.

“Iniciamos um levantamento em que percebemos a dificuldade de uma operação na área. A mata é muito fechada e fica muito difícil colocar alguém lá dentro. Por isso, invertemos o foco da investigação. Passamos a tentar descobrir para quem eram vendidos os palmitos. Sem comprador não haveria a exploração. Mas aí, a nossa equipe foi removida”, lamentou o delegado Antônio Rayol, atualmente de férias e ex-titular da Delemaph.

Rayol e sua equipe foram responsáveis pela descoberta de uma rinha de galo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro (RJ), em que foram presos o publicitário Duda Mendonça e o vereador Jorge Babu. Todos foram afastados em dezembro quando indiciariam outras pessoas pelo envolvimento na rinha. O delegado Deuler da Rocha Gonçalves Júnior substituiu Rayol no cargo.

Ele não foi encontrado nesta quarta-feira (23) para comentar a morte do ambientalista Dionísio Júlio Ribeiro ou a exploração de palmito. Informações na Polícia Federal dão conta de que o delegado está no Pará auxiliando nas investigações da morte da missionária americana Dorothy Stang, assassinada há duas semanas.

O biólogo Mário Moscatelli lamentou o ocorrido e disse que o Exército deveria participar da conservação. “Eu peço intervenção das forças armadas para proteger as UCs – Unidades de Conservação há muito tempo. Se não conseguem gerenciar um pedacinho de terra que é a reserva de Tinguá, como vão gerenciar a Unidade de Conservação da Terra do Meio, no Pará, que é do tamanho de um estado?”, questionou.

Corpo de ambientalista é sepultado

Familiares, amigos e parlamentares acompanharam o enterro do ambientalista Dionísio Júlio Ribeiro Filho na manhã desta quinta-feira (24), no cemitério de Ricardo de Albuquerque, na zona Norte do Rio de Janeiro.

A ambientalista Yatamalo Paritintins, que também trabalhava na defesa da Reserva Biológica do Tinguá, em Nova Iguaçu, disse que Dionísio havia mudado alguns hábitos por causa das ameaças que vinha recebendo. Segundo ela, o ambientalista teria organizado um dossiê denunciando as ameaças.

Dionísio, de 61 anos, foi morto com um tiro de escopeta na cabeça, a 200 metros da reserva, depois de participar de uma reunião com representantes da associação de moradores do local na noite de terça-feira (22).

O chefe de operações da Polícia Federal, delegado Marcelo Bertolucci, afirmou que já tem os nomes de alguns suspeitos do crime. Ele também confirmou que a PF procura o dossiê que teria informações sobre as ameaças contra o ambientalista. (Com JB Online e Radiobrás)