Acusados do assassinato da missionária voltam a Anapu/PA para reconstituir crime

De volta a Anapu, aonde foram levados para participar da reconstituição do assassinato da irmã Dorothy Stang, dois dos principais acusados confirmaram suas participações no crime. Rayfran das Neves Sales, o Fogoió, mostrou como disparou os seis tiros que mataram a freira. Eduardo, codinome de Clodoaldo Carlos Batista, confirmou que acompanhava Rayfran na hora do crime. Amair Feijoli da Cunha, o Tato, que Rayfran e Eduardo acusam de ter sido quem os contratou como pistoleiros, seguiu negando qualquer envolvimento com a morte.

Foi a primeira vez, desde a morte de Dorothy que os três voltaram à área do conflito. Foram levados de helicóptero de Altamira, onde estão presos. Com coletes à prova de balas, eles entraram na arena da reconstituição às 12h10. Em volta, numa pilha de galhos de madeira, 53 assentados que eram liderados pela irmã assistiram à encenação, enquanto 15 homens do Exército, uniformes de camuflagem e embrenhados na floresta em volta, montavam guarda. No cercado, 20 policiais militares, três delegados da Polícia Civil, 23 investigadores, além de cinegrafistas da polícia técnica e agentes da PF.

Primeiro entrou Rayfran e os dublês da freira e de Eduardo, recrutados na hora entre os espectadores. Calmo, voz firme, ele contou como a irmã perguntou a ele por que o pessoal da fazenda de Bida estava jogando semente de capim sobre as lavouras dos assentados – ao germinar, o capim mata outras espécies vegetais que estejam no mesmo terreno.

Rayfran disse ter respondido com outra pergunta: “A senhora não come carne?”, perguntou em alusão ao fato de o capim servir de alimento ao gado. A freira respondeu que sim, comia carne. E começou a ler-lhe a Bíblia, Evangelho de Mateus, na parte do sermão da Montanha, versículos 5, 6 e 9, que dizem: ‘Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra! Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados! Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!’.

Rayfran contou como encerrou a conversa: ‘Bom, irmã, assim não dá’. Olhou para Eduardo, deu-lhe uma piscadela, tirou a arma que estava enfiada na calça, segurou-a com as duas mãos e disparou o primeiro tiro – na região do abdôme. Caída, a irmã ainda foi alvejada nas costas (duas vezes) e na cabeça (três vezes).

A reconstituição seguinte foi feita com Eduardo e dublês da freira e de Rayfran. Eduardo, também aparentando calma, contou pausadamente a mesma versão do cúmplice, divergindo apenas em um detalhe fundamental para a sua defesa. Disse que, quando Rayfran piscou, fez com a cabeça um leve sinal de “não”, tentando dissuadir o colega.

Para a Polícia Civil, a reconstituição do assassinato da missionária esclareceu as “dúvidas que ainda restavam”. O responsável pela investigação, delegado da Polícia Civil Waldir Freire disse que a simulação foi “esclarecedora” para o caso. “A reconstituição foi fundamental para a continuidade das investigações e do trabalho da polícia. Se havia alguma dúvida, não há mais.”

“Esse foi o primeiro contato deles, desde o dia da morte da irmã. O Rayfran e o Clodoaldo estavam muito firmes e acusaram Tato o tempo todo de ser o mandante do crime”, conta o delegado. De acordo com Waldir, os policiais foram até a casa de Vicente Soeira, dono do imóvel em que Dorothy dormiu na véspera do crime e de onde saiu até ser abordada na estrada por Rayfran, como confessou o preso em depoimento à Polícia Civil.

Rayfran afirmou que a religiosa havia se despedido de um morador da área na estrada e, ao seguir em direção do assentamento Esperança, foi abordada por Rayfran e Clodoaldo. Vestindo um colete à prova de balas, Rayfran disse também que cercou a irmã e passou a conversar com ela, enquanto Clodoaldo observava. Segundo o delegado, os depoimentos dos acusados se confirmaram na reconstituição, não tendo “um só furo”. “Tudo batia no depoimento deles e na forma como mostraram que aconteceu.”

Os policiais simularam também a reunião dos colonos, ocorrida na casa de Vicente Soeira, na véspera do crime. Rayfran chegou a ir ao local, mas não conseguiu encontrar a irmã. De acordo com o depoimento, ele pretendia matá-la nesse dia.

O delegado Waldir Freire disse que vai esperar a conclusão do relatório da perícia sobre a reconstituição, que deve ficar pronto em dez dias.(JB Online)