Indígenas reclamam que não estão sendo ouvidos sobre mortes de crianças

“Estamos muito tristes com a morte de dezenas de nossas crianças nestes últimos meses. Ao mesmo tempo em que agradecemos todo apoio e ajuda que estão procurando nos dar, nos sentimos indignados por não estarmos sendo ouvidos e respeitados em muitos aspectos do nosso jeito de ser e nossos direitos”. A declaração faz parte do documento divulgado nesta semana pela Comissão de Direitos Indígenas do Povo Kaiowá–Guarani.

Segundo as lideranças indígenas que assinam a nota, as mortes e desnutrição são causadas por vários fatores, mas a falta de terra é apontada como raiz dos problemas. “Aqui no Mato Grosso do Sul, nós indígenas fomos sendo expulsos de nossas terras, assassinados para a entrada de gado e, depois, de grandes plantações monocultoras como a soja. Foi um processo de violência contra as pessoas e contra as nossas formas de vida. As matas, onde podíamos caçar, foram destruídas pelos madeireiros e os tratores dos fazendeiros. Era lá que podíamos coletar alimentos como as frutas, o mel e a matéria prima para fazer nossas casas e utensílios”, afirma o texto.

A Comissão avalia também que o assunto não pode ser tratado como se fosse um problema que se resolve ao “dar comida aos índios”, nem a cultura indígena pode ser julgada como responsável pelas mortes. Dessa forma, as soluções vão além da distribuição de cestas básicas, sem levar em conta se o tipo de alimentos está adaptado aos seus costumes.

“Nós precisamos, especialmente, de terras homologadas e respeitadas, sem invasores. Mas acima de tudo exigimos respeito e justiça. Não queremos ser mais uma vez objeto de caridade ou de projetos paternalistas. Temos o direto de ser diferentes e livres, de exercer nossa autonomia, sendo ouvidos na estruturação de políticas para nossos povos”, conclui.

O Estado do Mato Grosso do Sul já registrou neste ano oito mortes de crianças índias por desnutrição. Seis casos ocorreram em Dourados, um em Japorã e outro em Iguatemi. Mais duas crianças morreram no dia 04 de março no estado, mas a Funasa – Fundação Nacional de Saúde, órgão do Ministério da Saúde responsável pelo atendimento à saúde do índio, não aponta a desnutrição como causa dessas mortes.

Comissão quer discutir morte de crianças indígenas

A Comissão de Seguridade Social da Câmara dos Deputados aprovou requerimento convidando para uma audiência pública, na próxima semana, os presidentes da Funasa, Waldir Bezerra, e da Funai, Mércio Gomes e a secretária-executiva do Ministério do Desenvolvimento Social, Márcia Lopes, para explicarem as mortes das crianças indígenas, em Mato Grosso do Sul.

“Precisamos buscar esclarecimentos sobre as reais condições de saúde da população indígena, bem como o alcance das políticas sociais para essa parcela da população brasileira”, afirmou o deputado Eduardo Barbosa (PSDB-MG), autor do requerimento. (Com informações da Agência Brasil e Estadão Online)