Cientistas divergem sobre Lei de Biossegurança

A sanção presidencial da nova Lei de Biossegurança, que permite a pesquisa com células-tronco embrionárias humanas, foi comemorada por muitos cientistas. Mas, o consenso está longe de ser atingido. Por um lado, o CIB – Conselho de Informações sobre Biotecnologia, que há quase três anos trabalha no Brasil difundindo informações técnico-científicas sobre essa ciência, manifestou sua satisfação diante da Lei. De outro, por uma série de razões técnicas ou até filosóficas, parte da comunidade científica é reticente com relação ao uso das células-tronco. Alguns grupos chegam a ser contrários à prática.

O CIB afirma que a sanção é um passo importante para a definição de pelo menos duas questões que os brasileiros discutem há bastante tempo: a produção e a comercialização de organismos geneticamente modificados e a pesquisa com células-tronco embrionárias com finalidades terapêuticas.

“Com a lei, ganha a sociedade brasileira como um todo e, em particular, o mundo científico nacional, além dos produtores rurais, que durante muitos anos aguardaram essa legalização”, diz o comunicado da entidade. “O consumidor, por sua vez, recebe de forma definitiva o direito de optar pela compra de transgênicos. Já as empresas, a partir de agora, não terão mais receio de promover investimentos nos mais diferentes setores da biotecnologia no Brasil, o que certamente trará reflexos positivos no nível de empregos e na competitividade da agricultura nacional”.

O CIB acredita que, com isso, o Brasil poderá ocupar uma posição de maior destaque nas pesquisas ligadas à biotecnologia em suas diferentes áreas, particularmente na medicina, beneficiando os estudos com células-tronco embrionárias, e no agronegócio, com influência direta na produção de alimentos mais seguros, em maior quantidade e até mais nutritivos.

Totalmente favorável à aprovação da Lei e às possibilidades que se abrem com as novas linhas de pesquisa, Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo, um dos Cepids – Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão da Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, disse à Agência Fapesp que é preciso ter muito cuidado com algumas promessas. Os resultados ainda vão demorar vários anos para aparecer, em algumas situações.

“É necessário muito cuidado para que não se confunda pesquisa com tratamento – há uma pressão enorme de pessoas que já querem se tratar. Por outro lado, é muito importante continuar divulgando como isso será feito, porque já tem gente dizendo que vai injetar células embrionárias”, disse. Para Mayana, em vez de ceifar vidas, as novas pesquisas vão “criar novas vidas”.

Já a pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Nance Nardi, disse à Agência Fapesp que com relação à aplicação das células embrionárias em terapias de vários tipos de doenças, existem algumas desvantagens na utilização desse material genético que não apareceram durante os debates de aprovação do Projeto de Lei de Biossegurança.

“Acho interessante oferecer às pessoas a liberdade de opção, mas podem haver problemas: tais células apresentam grave risco de segurança, a não ser que estejam sob total controle, pode ocorrer o surgimento de tumores, do tipo teratomas, nos recipientes do transplante”, explica Nance.

Além disso, o uso de células-tronco embrionárias – e, portanto, de outro indivíduo – traz o problema da rejeição imunológica, assim como ocorre em qualquer tipo de transplante. “Esse, no entanto, poderia ser superado pelo emprego da clonagem terapêutica ou, como é chamada agora, da transferência nuclear, mas o texto aprovado não permite o emprego dessa metodologia”, afirma a pesquisadora.

Com bastante experiência nas pesquisas com células-tronco adultas, a cientista lembra que a aprovação do projeto de lei não significa que a cura de certas doenças esteja “logo além da primeira esquina”. Para Nance, isso passa a ser bastante doloroso particularmente para pessoas que aguardam com ansiedade uma novidade nessa área, que passa a ser a única possibilidade de cura de doenças como Parkinson, Alzheimer e lesões espinhais que causam paraplegia.

Segundo Nance, o uso de células-tronco embrionárias humanas tem uma importância muito grande para a pesquisa básica. “Processos celulares de proliferação e diferenciação têm regulações diferentes entre um tipo de célula e outro. E algumas dessas informações podem ser obtidas apenas em humanos”, explica.

Posições contrárias – No grupo dos totalmente contrários ao uso de células-tronco embrionárias, de acordo com a Agência Fapesp, está Dante Gallian, diretor do Centro de História e Filosofia das Ciências da Saúde da Unifesp – Universidade Federal de São Paulo. “Acredito que a partir do momento em que se conflagra o processo de desenvolvimento de uma vida humana – no momento da fusão dos gametas ou da infusão do núcleo contendo o material genético – a vida começa a existir”, disse.

Para o historiador da Unifesp, que classifica a aprovação da lei de “retrocesso humanístico”, a expectativa criada sobre o uso de células embrionárias humanas pode se transformar em engodo científico, ou porque os resultados não virão ou serão obtidos com muito atraso. “A Coréia do Sul ainda não chegou a nenhum resultado efetivo, apesar de usar essas células há algum tempo”, afirma. (Terra.com)