Colonos vão à Amazônia em busca de terras baratas para pecuária extensiva

O pecuarista André Schmidt chegou em Apuí, na Amazônia, há um ano, vindo de Maravilha, em Santa Catarina. Junto com três famílias do oeste catarinense, decidiu investir na criação de gado e comprou 280 hectares de terra – ou de pasto, como prefere dizer, porque “terra pública não se vende”. Lá, segundo Schmidt, cada alqueire custou R$ 8 mil reais, enquanto em sua cidade natal, o alqueire não sairia por menos de R$ 30 mil.

A Constituição Federal estabelece que o governo pode distribuir a particulares lotes de até 2.500 hectares, mas uma norma técnica do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) fixa o limite de 100 hectares para a Amazônia Legal. Mesmo assim, casos como o de Schmidt são comuns. O pecuarista José Pinto Sobrinho, por exemplo, ocupa irregularmente 300 hectares de terra dentro do projeto de Assentamento Juma, o maior da América Latina, onde cria 800 cabeças de gado. “Eu não me considero um grileiro, porque produzo na terra. Grileiro é quem vende o terreno”, disse ele, durante participação da consulta pública do Plano de Desenvolvimento Regional para a Área de Influência da Rodovia BR-163 Sustentável (Cuiabá-Santarém), em Apuí.

“O problema é que o colono vem do Centro-Sul para cá, convicto de que irá prosperar por meio da pecuária extensiva”, analisa o chefe de gabinete do Incra no Amazonas, Lúcio Carril. Schmidt diz que o governo não oferece condições para que os produtores de Apuí trabalhem dentro da legalidade. “Se eu quiser fazer uma derrubada autorizada ou aprovar um plano de manejo, terei que pegar um avião para ir até o Ibama de Humaitá ou Manaus. Não há vôos todos os dias e a passagem é cara”, criticou.

Virgílio Ferraz, chefe da Divisão Técnica do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Amazonas, informou que ainda neste semestre o Ibama montará uma base em Apuí. “Provavelmente usaremos uma sala cedida pelo Incra e contrataremos dois técnicos para permanecerem na cidade”, revelou Virgílio.

O município de Apuí foi criado em 1988, como conseqüência da implantação do Projeto de Assentamento Juma, o maior da América Latina. Segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o PA Juma tem 689 mil hectares e capacidade de assentar 7.500 famílias. Hoje as estimativas de população no projeto variam de 3.000 a 5.500 famílias.(Thaís Brianezi/Agência Brasil)