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03 / 10 / 2005EXCLUSIVO – Hoje, no aniversário de Dom Luiz Cappio, Cabrobó recebe romaria e manifestações
Mônica Pinto / AmbienteBrasil
Embora parte da grande imprensa insista em ignorar a mobilização social que se organizou desde o início da greve de fome do bispo da Diocese de Barra (BA), Frei Luiz Cappio, na segunda-feira 26, hoje esse suspeito desdém se tornará mais flagrante.
Neste quatro de outubro festeja-se o Dia de São Francisco, o Dia da Ecologia, o dia em que, no ano de 1501, Américo Vespúcio chegou à foz e deu ao rio o nome do santo. É também a data em que Dom Cappio completa 59 anos. Seu presente será uma grande passeata em Cabrobó, Pernambuco, onde o religioso se encontra, descansando e rezando missas na Capela São Sebastião. O local foi escolhido por ele por ser próximo da tomada d’água do eixo norte da transposição do rio São Francisco, projeto contra o qual o frei luta, antecipando que só interromperá a greve de fome “mediante documento assinado pelo Exmo. Sr. Presidente da República, revogando e arquivando o Projeto de Transposição.” (leia mais sobre o assunto nas matérias abaixo)
O apoio à decisão extremada de Dom Cappio vem crescendo com uma bola de neve. Ontem às 19h, partiram de Aracaju e de outros municípios de Sergipe, rumo a Cabrobó, pelo menos 25 ônibus, repletos de pessoas dispostas a participar das manifestações contra a transposição do Velho Chico. A romaria, encabeçada pelo governador do Estado, João Alves Filho, um dos mais aguerridos críticos do projeto, concentrou ainda Topics e carros pequenos, numa estimativa de mais de 1.500 romeiros.
Unidos na mesma causa, os bispos de Sergipe – Dom Mario Rino Sivieri, de Propriá, Dom José Palmeira Lessa e Dom Dulcênio, de Aracaju, e Dom Marco Eugênio, de Estância – organizaram a programação que ocorrerá pela manhã de hoje, na cidade ribeirinha de Propriá, a ser encerrada com ato público na ponte sobre o São Francisco que liga o município a Colégio, em Alagoas.
A romaria a Cabrobó foi alimentada ainda por ônibus das cidades de Salvador, Barra, Gentil do Ouro, Lapa, Juazeiro, Petrolina, Paulo Afonso, Sento Sé, Remanso, Sobradinho e Senhor do Bonfim, entre outras. Às 9h, reunidos os viajantes, começa a caminhada até a capela São Sebastião, seguida de ato de solidariedade, que inclui a oração Pai Nosso dos Mártires, benção das mulheres, falas dos povos do semi-árido, de representantes de etnias indígenas e da família do frei. A movimentação será encerrada com uma Celebração Eucarística presidida por Dom Luiz Cappio.
À tarde, ainda em Cabrobó, haverá uma assembléia dos movimentos populares. Já em Salvador, às 16h começa uma caminhada em apoio ao bispo, saindo da Praça da Piedade até a Igreja de São Francisco, no Pelourinho.
À carta enviada pelo presidente Lula, entregue no sábado passado por Silvino Heck, assessor do Gabinete da Presidência, Dom Cappio respondeu com obstinação: “Depois de não termos mais, sobre nossas cabeças, o fantasma do Projeto de Transposição, estamos inteiramente abertos para um amplo diálogo e debate nacional, verdadeiro e transparente, discutindo alternativas de convivência com o semi-árido e a oportunidade ou não de realizar a transposição”, escreveu ele (leia a íntegra no final da matéria).
Para o sociólogo Ruben Siqueira, da Comissão Pastoral da Terra, que estava com o bispo quando ele leu a carta enviada pelo presidente, a mensagem de Lula foi “decepcionante”. “Misturou sentimentalismo e argumentação técnica a favor da transposição”, disse ele a AmbienteBrasil. “Nenhuma sensibilidade e nenhum gesto concreto de recuo quanto ao projeto, algo que desse substância a sua proposta de diálogo”.
Dom Cappio escreveu ainda aos “queridos irmãos e irmãs nordestinos,
do Ceará, da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do Pernambuco”, explicando o porquê de suas restrições inabaláveis aos objetivos do Governo. E foi duro: “Não lhes contam toda a verdade sobre este projeto da transposição. Ele não vai levar água a quem mais precisa, pois ela vai em direção aos açudes e barragens existentes e a maior parte (mais de 70%) é para irrigação, produção de camarão e indústria.” (leia a íntegra no final da matéria)
O movimento contra a transposição e em apoio ao bispo criou um site – http://www.umavidapelavida.com.br – no qual, entre outras informações, explica a “atitude do Frei Luiz” (clique em Conheça as razões técnicas contra a transposição e a favor de alternativas viáveis)
Segundo Ruben Siqueira, o religioso começa a dar sinais de cansaço, sobretudo porque procura ser atencioso com os romeiros, em número crescente. “Fica difícil afastá-lo, mas ele está sereno, espiritualizado”, disse o sociólogo a AmbienteBrasil
Confira:
Dom Cappio responde ao presidente Lula
Carta de Dom Cappio Ao Povo do Nordeste
Leia outras matérias sobre a greve de fome de Dom Cappio:
EXCLUSIVO: O idealismo de um só homem pode barrar a transposição do rio São Francisco
EXCLUSIVO: Cresce o movimento de apoio a Dom frei Luiz Flávio Cappio