Governador de Sergipe acha que Justiça barrará transposição e apela a bispo pelo fim da greve de fome

O governador João Alves foi ontem, dia 04, a Cabrobó (PE) prestar solidariedade ao bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, que está em greve de fome contra o projeto de transposição do rio São Francisco. João Alves levou consigo os deputados federais Fernando Gabeira (RJ), Sarney Filho (MA) e José Carlos Machado (SE). Em Cabrobó, o governador se incorporou à caravana de 1.500 sergipanos que viajaram em 30 ônibus para se solidarizar com o bispo. Escolhido para falar em nome dos parlamentares presentes, ele fez um apelo a dom Luiz: “Não queremos vê-lo morto, suspenda a greve, temos esperança, estamos mais organizados, temos três ações na Justiça contra a transposição, confie em nós, vamos lutar e vamos vencer”.

Dom Luiz Cappio, com a saúde debilitada, completou ontem 59 anos de idade e entrou no nono dia de greve de fome. Desde que passou a ingerir apenas água natural, ele celebra uma missa diária e recebe os fiéis na capela em que se isolou, a 2,5 km de Cabrobó, no sertão de Pernambuco, para protestar contra o projeto do governo federal. Ontem ele saiu da capela amparado por religiosos para celebrar uma missa campal assistida por milhares de fiéis comovidos em frente à igrejinha. Coincidentemente, 4 de outubro também é a data em que o rio São Francisco foi descoberto há 504 anos. A romaria à capela, que fica a 1 km da beira de um braço do São Francisco, foi a mais numerosa desses nove dias de sacrifício do bispo pela vida do Velho Chico.

Irmãos nordestinos – João Alves, que foi o primeiro governador a se opor ao projeto de transposição e o único a percorrer o país fazendo palestras e participando de debates sobre a questão, dedicou 40 anos de sua vida ao estudo dos recursos hídricos no semi-árido nordestino e escreveu seis livros sobre o tema. “Em nenhum deles, nunca separei o Nordeste ribeirinho do Nordeste setentrional. Não somos contra levar água para os nossos irmãos do Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba. Existem soluções mais baratas e viáveis para isso. Essa transposição, como constata a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), visa levar água não para o consumo humano e animal, mas para a irrigação. Defendemos ações de convivência com a seca e o equacionamento dos recursos hídricos do Nordeste como solução correta e definitiva para o drama dos nordestinos”, pregou.

O governador foi recebido em Cabrobó como um líder que galvaniza a defesa da revitalização do São Francisco e a resistência ao projeto de transposição proposto pelo governo federal. Ao chegar à capela, foi cercado pela imprensa, seguido pela multidão e muito aplaudido. Havia por todo canto faixas com os dizeres “Sergipe se solidariza com a luta de dom Luiz”. João Alves entregou ao bispo o seu primeiro livro sobre as questões nordestinas, Nordeste, Estratégia para o Sucesso. “Neste livro, escrito há muito tempo, defendo basicamente as idéias hoje aqui defendidas por dom Luiz”, disse ele, para quem o religioso “é o símbolo vivo da defesa da vida do rio São Francisco”.

Intransigência – Ambientalistas, trabalhadores rurais, remanescentes de tribos indígenas, prefeitos e parlamentares foram se solidarizar com dom Luiz Cappio no dia do seu aniversário e foram unânimes em condenar o projeto de transposição. “O governo deveria recuar de sua posição intransigente. A imposição de um ponto de vista envolvendo assunto tão polêmico é perigosa. A posição do bispo não é radical. É pela revitalização do São Francisco”, disse o deputado Sarney Filho. Para ele, “é um absurdo investir R$ 4,5 bilhões em uma obra de engenharia, enquanto há cidades dentro da bacia hidrográfica sem esgoto tratado e sem água potável”.

O deputado Fernando Gabeira propôs a suspensão do projeto por 90 dias. “Nesse prazo, seriam tratadas e equacionadas as questões de ordem política, social, técnica e jurídica”, sugeriu, ao considerar que “é preciso ampliar o debate em torno de assunto tão polêmico”. Na opinião do frei Enoque Salvador, ex-prefeito de Poço Redondo (SE), a atitude de dom Luiz Cappio é uma “interpelação à sandice do governo Lula, que não é mais capaz de ouvir o clamor da população”. Já o bispo de Própria (SE), dom Mario Sivieri, que também foi a Cabrobó, entende que a Lula restam duas opções: recuar, num gesto de humildade e nobreza, ou manter o projeto, “o que seria péssimo”.

Da caravana sergipana fizeram parte também os prefeitos de Propriá, Telha, Santana do São Francisco, Gararu, Poço Redondo e Tomar do Geru, além dos deputados federais Ivan Paixão e João Fontes e do estadual Augusto Bezerra. O paulista Jovino Cândido, o mineiro Leonardo Matos e o baiano Edson Duarte estavam entre os parlamentares federais que participaram da missa campal. O protesto de dom Luiz Cappio ganhou a adesão de um grupo de pessoas que, a partir de hoje, iniciou uma greve de fome em Cabrobó.
(Eduardo Almeida / Agência Sergipe Notícias)

Acompanhe a cobertura de AmbienteBrasil à greve de fome do bispo Cappio

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