EXCLUSIVO – João do Lixo: mais que um artista

Mônica Pinto / AmbienteBrasil

Do lixo ao luxo é uma concepção de reciclagem que tornou-se até banal. Mas na obra do curitibano João Alberto Vasco de Andrade, 59, essa imagem ganha consistência e verdade. Há onze anos, ele adotou o pseudônimo de “João do Lixo”, num processo que começou ao acaso. Cortou uma garrafa pet em diagonal, fazendo dela um círculo perfeito. Foi o suficiente para que percebesse os poderes da transformação.

À época, João era ainda empresário, dono de restaurante em Florianópolis (SC), onde morava. Um problema de saúde na família fez com que ele arrendasse o estabelecimento, o que lhe garantiu uma certa renda e tempo livre. Autodidata, começou a associar arte a materiais recicláveis, num período em que tais possibilidades ainda não figuravam no topo da conscientização ecológica.

Vasculhando o que, à maioria, soava como resíduos absolutamente sem serventia, começou a produzir enfeites natalinos. “Minha família achava que eu estava ficando louco, mas minha esposa me apoiou”, lembra. As embalagens de pó de café renderam vistosos laços dourados; latas de alumínio garantiam a cor prata tão apreciada nesses adereços.

As peças foram expostas e a mídia catarinense reconheceu seu talento. Em uma das muitas entrevistas, um repórter lhe questionou: “mas essa árvore de Natal, um dia, também vai acabar no lixo”. Foi o suficiente para que o criativo João inventasse a reciclagem da reciclagem. “Tive uma inspiração: de decorador natalino, virei um carnavalesco”. Passou a investir em fantasias, concebidas com materiais reaproveitados de outra peças.

O cavaleiro medieval é, inegavelmente, uma obra de arte. Outras criações se destacam pela beleza obtida que, num futuro próximo, a contar com um mínimo de lógica, vai abrir a João do Lixo as portas de atenções internacionais.

Com essas excêntricas vestimentas, nasceram também mais uma fonte de renda. O artista não vende suas peças, mas foi contratado diversas vezes para levar suas roupas a desfiles em shopping centers e em festas. Uma noiva cismou de casar-se com um de seus vestidos e tratou de alugá-lo. João já ministrou oficinas em municípios de vários estados. Perdeu a conta de quantas – “foram trocentas”, brinca.

Ele é eventualmente contratado por Prefeituras que optam por fazer suas decorações juninas ou de Natal com materiais reciclados. Num trabalho de equipe que envolve toda a cidade, ensina gente do povo a elaborar cada enfeite, fazendo do respeito à natureza não só uma lição preciosa, mas, de forma prática, uma perspectiva de geração de renda.

Não tem nenhum ciúme quanto ao fato de suas peças serem hoje reproduzidas por toda parte. É justamente esse o objetivo que o torna um homem realizado. “Feliz daquele que vê o lixo como uma escultura, como um brinquedo”, diz, absorvendo com tranqüilidade os novos desafios. “Quanto mais repasso meu conhecimento, mais a minha criatividade tem que fluir”.

Segundo João, o lixo transmite o “vírus do entusiasmo”. Porém, purista, hoje ele execra transformações radicais – exemplo: fazer uma árvore de Natal de garrafas pet e pintá-la de dourado. “É uma incoerência incentivar nas oficinas o uso de tintas; usar cola, só se não tiver jeito”, ensina. Para prender as diversas peças das obras, ele dá preferência ao arame, daquele tipo usado para lacrar pacotes de pão. “A beleza está em manter o produto reciclado o mais original possível, sem muita interferência”.

Nessa proposta de fazer do “lixo que não é lixo” um instrumento de cidadania e inclusão social, atualmente o artista está empenhado em cursos contratados pelo Provopar, um programa de voluntariado voltado ao terceiro setor, que atua em parceria com o governo do Paraná e a sociedade civil. Foi através dele que João pode expor seus trabalhos na feira “Reciclação”, evento paralelo à Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica – COP8 -, a reunião de mais de 180 países organizada pela ONU e realizada até sexta-feira passada em Curitiba.

Desses contatos com gente simples de várias cidades, João do Lixo extraiu doses de sabedoria, entre tantas que vem amealhando nessa trajetória. “Nas oficinas, o mais importante é a solidariedade, o companheirismo com as pessoas”, diz. “Não só no curso, mas para a vida fluir, a gente tem que ter isso”. Sábias palavras, que todos deviam incorporar ao cotidiano.

Confira mais informações no site de João do Lixo.

Fotos de Sidney Xambu:
1) João do Lixo e um brinquedo de sucata
2) O cavaleiro medieval: luxo do lixo
3) Peixe também confeccionado em lacres de latas
4) Tartaruguinha de garrafa pet: simplicidade

Matéria relacionada:

EXCLUSIVO: A senhora da reciclagem

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