EXCLUSIVO – Ciência e Meio Ambiente: um casamento que pode dar certo

Mônica Pinto / AmbienteBrasil

A Ciência vem proporcionando ao ser humano um desenvolvimento tecnológico acelerado que, por muito tempo, se confundiu com qualidade de vida. Hoje, tal associação já mostra-se freqüentemente errada, visto que o meio ambiente costuma pagar a conta. São muitos os exemplos das chamadas “facas de dois gumes”, desde o agronegócio que tanto alimenta quanto desmata em largas escalas aos problemas na geração de energia hidrelétrica, com o extermínio de fauna e flora perpetrado por suas barragens.

Mas a Ciência costuma também gerar valorosas experiências com vistas à conservação dos recursos naturais. Esse é, por exemplo, o objetivo da Embrapa Agrobiologia, que trabalha sob o slogan “Parceria com a Natureza”.

Essa unidade vinculada à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa -, localizada em Seropédica, na Baixada Fluminense, tem desenvolvido alternativas capazes de reduzir os efeitos nocivos da agricultura ao Meio Ambiente.

Dentro dessa perspectiva, não surpreende que uma das meninas dos olhos da Embrapa Agrobiologia seja os cultivos livres de adubos químicos e agrotóxicos. “Quando você compra um produto que não é orgânico, não pode avaliar o passivo ambiental que existe ali”, alerta o pesquisador Eduardo Campello, chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da unidade.

“Quem produz de maneira orgânica tem compromisso em preservar as matas ciliares, as reservas legais”, diz ele, para quem os alimentos nascidos deste modelo não devem ser considerados mais caros. “Eles incorporam o preço de estar respeitando o meio ambiente”, coloca, valorizando ainda ganhos nutricionais e de integridade dos produtos.

A Embrapa Agrobiologia tem na fixação biólogica de nitrogênio no solo – que se consegue com a chamada adubação verde – um forte aliado. Em termos simples, a técnica consiste em cultivar uma espécie capaz de enriquecer o solo, deixá-la secar sobre a terra e, depois, plantar outra cultura por cima, que vai aproveitar todos os nutrientes deixados por sua antecessora.

As experiências são feitas na Fazendinha Agroecológica da Embrapa, que, neste campo, atua em parceria com a Universidade Rural do Rio de Janeiro e com a Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro – Pesagro.

Mas como esse trabalho pode efetivamente proteger a natureza? O pesquisador Campello explica que toda a soja brasileira foi aprimorada para ter variações que fixassem nitrogênio de forma eficiente, sem demandar o uso de adubos nitrogenados, que podem contaminar o solo. Isso é melhoramento genético – não confundir com transgenia (confira a diferença entre ambos no final da matéria). E a vantagem não é só ambiental. “O Brasil economiza 2 bilhões de dólares por ano por não ter de comprar esse adubo”, diz Campello.

O capim que pode substituir o carvão mineral

Um dos estudos mais interessantes da Embrapa Agrobiologia, fruto de dez anos de pesquisas, foi a identificação de três variedades de capim elefante (Gramafante, Cameroon Piracicaba, BAG 02) com alta capacidade de produção de biomassa sem o uso de adubo nitrogenado.

A produção destas variedades pode chegar a 60 toneladas/hectare/ano, muito superior à floresta de eucaliptos, fonte utilizada atualmente mas que necessita de adubo nitrogenado, além de possibilitar apenas uma colheita anual, enquanto o capim elefante possibilita quatro colheitas no mesmo período. Parecido com a cana-de-açúcar, rico em fibras e bastante similar ao utilizado na alimentação animal, o capim elefante vem sendo apontado com uma das melhores alternativas para a produção de carvão vegetal cultivado.

A notícia é especialmente proveitosa para a indústria siderúrgica nacional, que pode assim adequar-se às exigências dos mercados internacionais de ferro e aço, atentos às orientações e oportunidades do Protocolo de Kyoto.

Hoje, o carvão utilizado na siderurgia brasileira é quase todo de origem mineral, cuja queima contribui para o aumento da emissão de gases causadores de efeito estufa. O uso do carvão mineral gera uma queima de aproximadamente 600 mil toneladas de CO2 (gás carbônico), enquanto o capim elefante ajuda a absorver o CO2 na atmosfera durante o seu crescimento.

Através de uma parceria com a Mineradora Samarcos, controlada pela Companhia Vale do Rio Doce, estão sendo desenvolvidos estudos para produzir capim elefante em grande escala, visando o atendimento da indústria siderúrgica. Segundo informações da Assessoria de Comunicação da Embrapa Agrobiologia, a empresa precisa de 200 mil toneladas de carvão mineral/ano para produzir 15 milhões de toneladas de pelotas de ferro. Para substituir todo este carvão, serão necessários pelo menos 13 mil hectares de capim plantados. Do ponto de vista do agronegócio, isto vem significar a possibilidade de geração de empregos e melhoria de renda para os agricultores.

Confira qual a diferença entre melhoramento genético e transgenia.

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