Projeto de geólogo americano tenta ordenar a história da Terra

O geólogo Samuel Bowring tem uma maneira bastante peculiar de estimular estudantes do primeiro ano de geologia em suas aulas no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos EUA. Na frente da classe, com um bloco rochoso na mão, ele grita: “Ouçam a rocha! Deixem que ela fale com vocês!”

Nos últimos anos, Bowring tem tentado escutar as rochas de várias partes do mundo. O problema é que a pergunta que tem feito a elas não é algo a que velhas senhoras respondam facilmente. Ele quer saber quantos anos elas têm.

Sam, como prefere ser chamado, é um geocronólogo. Ele ganhou US$ 1 milhão da Fundação Nacional de Ciências dos EUA para coordenar um grande esforço de datação de rochas no planeta inteiro. Com o projeto, batizado de Earthtime (“Tempo da Terra”, em inglês), ele espera eliminar o que chama de arbitrariedades na leitura do confuso livro da história do planeta.

Isso pode ser importante para responder a questões sobre o que aconteceu há muito tempo – como surgiram os primeiros animais e como aconteceram as grandes extinções em massa no passado -, mas também para elucidar fatores que hoje estão diretamente relacionados com a sobrevivência da espécie humana, como a influência do clima na biologia, e vice-versa.

“Uma coisa que aprendemos foi que grandes mudanças no clima, grandes extinções, acontecem em escalas de tempo muito reduzidas. Se quisermos entender o que aconteceu, precisamos ter a cronologia mais precisa que pudermos”, disse Bowring à Folha.

Ele dá como exemplo a transição entre os Períodos Paleoceno e o Eoceno, há cerca de 55 milhões de anos. Naquela época, o clima da Terra esquentou bastante e as concentrações de gás carbônico (o principal gás de efeito estufa) estavam muito mais altas do que estão hoje. Essa passagem para um “mundo-estufa” aconteceu em alguns milhares de anos e causou várias extinções. “Muita gente acha que o que aconteceu com o planeta naquela época é muito similar ao que estamos fazendo com o planeta hoje”, diz o geólogo. “Mas esse período não está tão bem calibrado.”

Tudo é relativo – O tempo geológico, que conta a história do planeta, é uma escala grosseira, montada há quase dois séculos por cientistas europeus. Essa escala determina a idade das rochas com base na ocorrência de certos fósseis. Um determinado Período – o Jurássico, por exemplo – é definido pela primeira e a última ocorrência de determinados tipos de animais.

Essas datações relativas, no entanto, trazem dois tipos de problema. Um é que fenômenos importantes para a vida na Terra são invisíveis à escala de tempo geológico, que se mede em milhões de anos.

Um exemplo é a extinção em massa que varreu do mapa 90% das espécies entre o Permiano e o Triássico, há 252 milhões de anos. Suas causas ainda são debatidas, mas muitos cientistas apostam na influência de megaerupções vulcânicas na Sibéria como a causa possível.

“Se você quiser fazer essa relação, precisaremos saber a idade das erupções e da extinção com uma precisão de 50 mil anos”, diz Bowring.

O outro problema é a dor de cabeça que as datas relativas causam aos paleontólogos (estudiosos de fósseis). “”Jurássico”, por exemplo, é uma definição européia. O que é Jurássico na Europa pode não ser na China”, diz Kirk Johnson, paleontólogo do Museu de História Natural de Denver (EUA). Ele e seus pares precisam lidar com paradoxos como a ocorrência de aves no Jurássico alemão e de dinossauros emplumados, em teoria ancestrais das aves, em rochas aparentemente mais jovens, do Cretáceo chinês.

Peneira fina – A boa notícia é que os cientistas hoje já têm como fazer datações absolutas de rochas com uma margem de erro de 100 mil anos – um piscar de olhos geologicamente falando. O laboratório de Bowring no MIT e vários outros usam para isso minúsculos cristais de zircão, presentes em cinza vulcânica.

Esse mineral é um excelente relógio geológico, por conter átomos de urânio, que decaem (se transformam) em átomos de chumbo com a passagem do tempo a uma taxa conhecida.

O objetivo do Earthtime, diz Bowring, é acertar o cronômetro de todos os laboratórios do mundo que trabalhem com esse relógio. E estabelecer datas absolutas para “recalibrar radicalmente a história da Terra até a origem dos animais”.

Bowring já havia ganho fama por ter estabelecido em 543 milhões de anos a data da chamada explosão cambriana, na qual surgiram todos os grupos de animais conhecidos hoje. Até então, achava-se que o evento tivesse ocorrido a qualquer momento entre 570 milhões e 550 milhões de anos atrás.

As últimas demonstrações dessa grande recalibragem foram publicadas por ele e colegas na forma de dois artigos científicos, na edição de dezembro da revista “Geology”.

Em um deles, os pesquisadores usaram datação por zircão para estabelecer a idade das rochas nas quais surgiram os primeiros dinossauros: 230,91 milhões de anos, precisamente. No outro, eles estabelecem o tempo que a Terra levou para se recuperar da extinção do Permiano: 5 milhões de anos.

Neste mês, os cientistas do Earthtime, que tem 252 membros – entre eles o brasileiro Farid Chemale Júnior, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul -, tentarão precisar mais uma data ilustre: a da extinção dos dinossauros, ocorrida, acredita-se, há mais ou menos 65 milhões de anos. (Claudio Angelo/ Folha Online)