Governo amplia projeto que tira sal da água

Um projeto do governo federal que trata a água subterrânea do Semi-Árido, de modo a torná-la potável, prevê aumentar este ano em 50% o número de comunidades beneficiadas. A medida, voltada a locais de baixo IDH-M (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, uma adaptação do IDH aos indicadores regionais brasileiros, criado pelo PNUD e parceiros), atende hoje 80 localidades, e deve chegar a 120 até dezembro, prevê o Ministério do Meio Ambiente.

Chamada de Água Doce, a iniciativa consiste na instalação de sistemas de dessalinização em comunidades em que chove pouco. Os projetos beneficiam moradores de Alagoas, Sergipe, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Espírito Santo e Minas Gerais. Os equipamentos retiram a água do solo, que tem altas concentrações de sal, e fazem uma espécie de filtragem para deixá-la própria ao consumo humano. “No Semi-Árido, o solo é praticamente impermeável. A água bate e vai embora. Uma pequena parte vai sendo filtrada pelas rochas e absorvendo sais de cálcio, de magnésio e de sódio”, afirma Regina Generino, técnica especializada do Ministério do Meio Ambiente ligada à coordenação nacional do Programa Água Doce.

Essa água salgada é, em muitas comunidades, a única fonte de água para beber e cozinhar, embora tenha sal excesso em excesso — a concentração chega a ser próxima à do mar (30 mil miligramas por litro), quando o recomendável para consumo é de até mil miligramas por litro, segundo Regina. Com o uso do dessanilizador, esses níveis podem chegar a 500 miligramas, o que evita problemas como pressão alta e artrose, além de doenças causadas pela contaminação.

Em outras regiões, o abastecimento é feito também por carros-pipas, que oferecem água de baixa qualidade, ou por barreiros (grandes poças d’água que também são usadas por animais). “Quando você toma uma água contaminada, vai ter mais diarréia, desidratação e muito mais mortalidade, especialmente entre as crianças, que têm menos imunidade. Isso é mais grave ainda em comunidades carentes, que não têm acesso ao atendimento médico nem alimentação adequada”, ressalta a técnica do Ministério do Meio Ambiente.

O Água Doce foi implementado em 2004. Ele começou substituindo antigos aparelhos dessalinizadores, que não funcionavam mais, instalados por um antigo projeto do governo federal chamado Água Boa. “O programa não tinha manutenção, nem o compromisso da comunidade com esses aparelhos. O diferencial agora é justamente o envolvimento da comunidade, em que todos assinam um acordo”, diz Célia de Mendonça, também técnica especializada do Ministério do Meio Ambiente ligada à coordenação nacional do Programa Água Doce. São os moradores também que escolhem a forma como a água será repartida.

Desde o ano passado, uma unidade demonstrativa, instalada no município de São José do Seridó (RN), pesquisa o que pode ser feito com o os resíduos dos dessalinizadores. “Quando se separa o sal da água, é produzido um concentrado que, se jogado fora, pode contaminar o solo. É possível alimentar animais como bode e cabra com essa sobra, ou usá-la para lavar louça ou tomar banho”, exemplifica Célia.

As pesquisas são feitas em parceria com a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), com um investimento de pouco mais de R$ 10 milhões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social) e da Fundação Banco do Brasil. A verba servirá ainda para a instalação de mais 22 unidades demonstrativas — duas em cada uma dos dez Estados e outras duas possivelmente no Maranhão.
(Fonte: Talita Bedinelli – PNUD/Brasil)