Gripe de 1918 usa sistema imunológico da vítima para matar

Macacos infectados com uma versão ressuscitada do vírus que desencadeou a epidemia de gripe espanhola de 1918, a mais letal da história, deram aos cientistas uma idéia melhor de como a doença atacava de forma tão rápida e impiedosa: voltando o corpo da vítima contra si mesmo.

A pesquisa, que determinou que o sistema imunológico, hiper-estimulado, mata enquanto tenta combater a gripe, ajuda a explicar por que a maioria dos 50 milhões de mortos na epidemia era de adultos jovens e saudáveis. A gripe convencional costuma ser mais prejudicial para os muito novos, ou muito idosos.

Este novo olhar sobre o velho matador dá aos médicos idéias para combater a atual onda de gripe aviária, se essa doença vier a desenvolver a capacidade de disseminar-se facilmente entre seres humanos. O vírus de 1918, reconstituído por meio de manipulação genética, existe hoje apenas em dois laboratórios.

Cientistas afirmam que ficaram surpresos com a rapidez e violência com que o vírus de 1918 atingiu sete macacos que foram testados num laboratório de alta segurança, no Canadá. O vírus se dissemina mais rapidamente que um micróbio da gripe comum, e desencadeia uma “tempestade” no sistema imunológico do animal.

As defesas do corpo tornam-se frenéticas e ficam sem saber quando parar, disseram os pesquisadores. Os pulmões se inflamam e se enchem de sangue e outros fluidos. Os cientistas crêem que o efeito em humanos deve ser igual. “Essencialmente, as pessoas se afogam a si mesmas”, disse o virologista Yoshihiro Kawaoka, principal autor do trabalho, que será publicado na edição desta quinta-feira da revista Nature.

O experimento deveria ter durado 21 dias, mas após oito, os macacos já estavam tão doentes que as normas éticas forçaram os pesquisadores a praticar eutanásia.

“Ficamos um pouco surpresos em ver que era tão ruim”, disse outro autor do trabalho, Michael Katze. “Foi a robustez do sistema imunológico que ajudou a vitimá-los”.

Nenhum outro vírus de gripe mata macacos, e a velocidade em sua disseminação, além da resposta esmagadora do sistema imunológico só são comparáveis às do vírus H5N1, da gripe aviária, diz Kawaoka. A gripe aviária se espalha pelo mundo de modo intermitente, mas ainda não tem a capacidade de se espalhar diretamente entre pessoas. Se essa capacidade surgir, cientistas crêem que a compreensão da gripe de 1918 poderá ajudar a proteger as populações afetadas.

Os resultados descritos nas Nature, por exemplo, sugerem que o combate á gripe aviária poderia ser feito enfrentando-se a inflamação e contendo a resposta imunológica do organismo, diz um especialista. (AP/ Estadão Online)