No Paraná, acidentes com agrotóxicos preocupam o governo

O número de pessoas que se contaminam com agrotóxicos preocupa no Paraná. Na maioria das vezes, são trabalhadores rurais que não tomam os cuidados necessários. Em todo o Estado, a quantidade de acidentes com este tipo de produto só perde para as intoxicações com medicamentos. Segundo dados da Divisão de Zoonoses da Secretaria Estadual de Saúde, são feitas em média cerca de 200 notificações por mês de casos de intoxicação por agrotóxicos. O Paraná é o segundo consumidor do produto no País, com cerca de 40 mil toneladas por ano.

A chefe da divisão, Gisélia Rubio, conta que a maioria das vítimas são agricultores. Porém, há também um grande número de casos de tentativas de suicídio com o produto. O mais alarmante é que esses números podem ser três vezes maior, de acordo com estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), pois muitas pessoas não procuram o serviço de saúde em caso de acidentes. Para Gisélia, há ainda outros problemas que agravam a situação. “Muitas vezes, o agricultor não tem informação e acaba não indo ao médico depois do acidente, o que diminui o número de notificações, embora elas sejam obrigatórias. Há também o caso em que o profissional de saúde não está preparado para diagnosticar o problema”, afirmou.

Gisélia explica que, geralmente, o agricultor se contamina com agrotóxico porque não tem informação, pois as bulas dos produtos usam termos difíceis de entender e são enormes. Outro problema é a falta do receituário, que evitaria a compra de produto falsificado ou em desconformidade com a lei. Para a pessoa adquirir uma embalagem de agrotóxico na loja, ela deve levar a receita, assim como a compra de um medicamento na farmácia. Porém, nem sempre é isso que acontece. “Esse receituário deve ser expedido por um agrônomo que toda loja deve ter. Porém, sabemos que existem falhas”, afirma Gisélia.

A cada mês, a Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento (Seab) faz cerca de 15 autuações em lojas que vendem agrotóxicos e em propriedades pela falta do uso do receituário no Paraná há cerca de mil lojas legalizadas. O chefe da Seção de Fiscalização do Receituário Agronômico e Ecotoxicologia da Seab, Reinaldo Skalisz, explica que os agricultores têm conhecimento da obrigatoriedade do receituário, mas muitas vezes fazem compras sem ele. “Há casos em que nós vamos à loja, pedimos a receita e ela está em branco com o agricultor. E há o contrário também. Há situações em que o dono da propriedade tem conhecimento da lei e não repassa as informações ao empregado”, diz.

Para Skalisz, as intoxicações acontecem justamente por causa da falta do receituário, o que abre brechas para a compra de produtos ilegais, e também por conta da falta de uso de equipamentos de proteção, que muitas vezes são vistos como um estorvo pelos trabalhadores rurais. Na opinião de Gisélia, não se deve culpar apenas o agricultor. “O consumidor também tem parte da culpa, pois ele exige cada vez mais frutas e verduras bonitas e grandes. É preciso que haja um maior incentivo ao cultivo de orgânicos para diminuir o consumo de agrotóxicos”, avalia.

O comerciante que for pego vendendo sem receituário ou produtos ilegais é autuado, leva uma advertência e, em caso não se adequar-se, leva uma multa de R$ 1.500. O agricultor só deve comprar produtos em locais especializados, nunca os contrabandeados e que sejam registrados, no Ibama, no Ministério da Saúde, na Secretaria Estadual de Agricultura, na Secretaria Estadual de Saúde e no Instituto Ambiental do Paraná (IAP).

Divisão de Controle de Zoonoses notifica os casos

Em um ano, a Divisão de Controle de Zoonoses notifica, em média, dois mil casos de intoxicação em geral. No ano passado, foram notificadas 830 intoxicações por remédios, 485 por agrotóxicos, 267 com pesticidas domésticos e 149 com produtos de limpeza.

Em 2005, do total de intoxicações (2.899), 1.106 foram com medicamentos, 787 com agrotóxicos, 414 com pesticidas domésticos e 202 casos com produtos de limpeza. A chefe da divisão, Gisélia Rubio, disse que os adultos geralmente se intoxicam durante uma tentativa de suicídio e as crianças, acidentalmente. Segundo ela, a intoxicação com medicamentos ocorre em maior número com crianças na faixa etária de um a cinco anos. “A faixa etária em que tudo é levado à boca”, comentou.

Gisélia alerta para que os pais nunca deixem remédios ao alcance das mãos de crianças – muitas pessoas costumam guardá-los ao lado da cama. Ela também orienta que os remédios vencidos sejam ser jogados no vaso sanitário, para depois jogar a embalagem no lixo. “Nunca utilizar remédios que um amigo ou vizinho tomou. Sempre é necessário consultar um médico”, disse. Um agravante, segundo Gisélia, é que muitos remédios são atrativos para as crianças, pois parecem bala. “Até mesmo os pais dizem para os filhos que é balinha, para que eles tomem o medicamento. Mas não é assim que temos que agir. Temos sempre que incutir na cabeça da criança que remédio não deve ser tomado sem receita médica”, orientou.

Em Curitiba há um telefone de emergência para casos de intoxicação: 0800-410148. Em Londrina, o número é (043) 3371-2244; em Maringá é (44) 2101-9127 e em Cascavel, 0800-645-1148.
(Fonte: Mara Andrich / parana-online)