Feijão guandu reduz a mortalidade e acelera o crescimento de espécies florestais

Região marcada por constantes conflitos fundiários – entre fazendeiros e pequenos trabalhadores rurais sem-terra – e o uso irracional dos recursos naturais, o Pontal do Paranapanema – localizado no extremo Oeste do Estado de São Paulo e delimitado pelos rios Paraná, ao Norte, e Paranapanema, ao Sul – apresenta uma paisagem desoladora: extensas áreas destinadas a pastagens entrecortadas por dezenas de pequenos fragmentos florestais. Remanescentes degradados da Mata Atlântica do Interior, estes fragmentos somam aproximadamente 20 mil hectares.

Tiago Pavan Beltrame, engenheiro florestal e pesquisador do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas – que estuda e aplica há 15 anos formas de restaurar a vegetação da região -, identificou uma leguminosa com alto potencial para a restauração ecológica: o feijão guandu (Cajanus cajan (L.) Millsp.). O guandu é cultivado em Sistemas Agroflorestais (SAF’s), que consorciam por um tempo limitado espécies arbóreas com culturas agrícolas anuais – como o milho, a abóbora, o amendoim e a mandioca -, para a constituição de corredores ecológicos, uma alternativa promissora para promover a restauração da paisagem do Pontal. Os corredores conectam os fragmentos florestais e possibilitam o trânsito de animais e conseqüente fluxo gênico entre populações de espécies da fauna e flora.

A pesquisa pioneira foi realizada nos últimos três anos no Santa Zélia, um dos 102 assentamentos da reforma agrária existentes no Pontal e desenvolvida por Beltrame em sua dissertação de mestrado defendida no curso de pós-graduação em Agronomia da Universidade Estadual de Londrina. As espécies florestais nativas que foram plantadas em consórcio com o feijão guandu apresentaram melhor desempenho do que as espécies cultivadas sem a leguminosa. E a mortalidade das árvores foi significativamente mais alta no plantio sem guandu, do que nos experimentos com o feijão.

“Através do cultivo do feijão guandu queremos propiciar a criação do ‘campo dos sonhos’, onde o crescimento das árvores nativas seja favorecido, acelerando o processo de restauração da paisagem”, afirma o pesquisador, referindo-se aos safe sites, ou “lugares seguros”, propícios ao desenvolvimento das árvores de maneira similar àquele da floresta nativa. O guandu é um excelente adubo verde, porque produz abundante matéria orgânica que protege o solo e libera nutrientes de forma gradual, o que atende à demanda constante das árvores. Constata-se também a sua capacidade de fixação de nitrogênio, um nutriente químico essencial ao crescimento das plantas.

Quando consorciado em especial com espécies pioneiras (primeira que nasce em área desmatada e que necessita de muita luz para se desenvolver), o feijão guandu acelera o seu crescimento devido ao estímulo à competição por luz solar, criando um mecanismo de facilitação, o que evidencia seu potencial de restauração biológica.

A leguminosa ainda cria barreiras de contenção, alterando as características físicas do seu entorno, como redução da temperatura, da luminosidade e da insolação, aumento da umidade e proteção contra o vento, a chuva e as espécies invasoras. A planta ainda ameniza um grande empecilho para a recomposição florestal, que é o microclima (condições climáticas de uma superfície pequena e que são diferentes da região que a cerca) com o qual se deparam as mudas florestais plantadas em áreas degradadas.

Participação comunitária – “A terra é viva. Não gosto de fogo aqui”, afirma Nivaldo Castro, 39 anos, agricultor do Assentamento Ribeirão Bonito, expondo um pouco do que já aprendeu sobre agroecologia. “A terra daqui é muito compactada e surrada. Não utilizamos mais o fogo para limpar o terreno. As folhas que caem no chão protegem o solo da erosão e aumentam a umidade. As minhocas descompactam a terra”. Ele também já cultiva o feijão guandu em sistemas agroflorestais ou SAF’s, adaptáveis às condições do solo da região, que exigem lavouras com cultivo de baixa tecnologia, e que, em longo prazo, podem aumentar a fertilidade da terra.

Hoje, existem seis mil famílias assentadas no Pontal, segundo o Itesp (Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo). Após a vitória pela conquista da terra, estes pequenos agricultores deparam-se com a difícil realidade: o solo apresenta fragilidade natural à erosão, com elevada concentração de areias, baixa fertilidade, boa permeabilidade e drenagem excessiva. Com freqüência, a alternativa que resta ao agricultor é abandonar o cultivo no próprio lote e partir para o trabalho nas fazendas de cana-de-açúcar.

Identificando os assentados como atores centrais na conservação e restauração da paisagem, o IPÊ desenvolve, em parceria com órgãos governamentais, diversos projetos baseados em conceitos de agroecologia e desenvolvimento sustentável, e que prezam a participação comunitária em todo o processo – do planejamento à implementação. Esses projetos constituem o Programa Agroflorestal do IPÊ no Pontal do Paranapanema para a criação de ilhas de agrobiodiversidade, viveiros agroflorestais comunitários e corredores ecológicos em reservas legais, e são executados pela equipe formada por Nivaldo Campos, Laury Cullen Jr., Jéfferson Lima, Haroldo Gomes, Vicente Moscogliato e Tiago Beltrame.

Corredores Agroflorestais em Reservas Legais – O experimento com o feijão guandu foi realizado por Beltrame dentro do projeto “Resgatando a Mata Atlântica do Pontal do Paranapanema: Reforma Agrária com Reforma Ecológica”, financiado pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente – MMA, que restaura áreas de reserva legal de assentamentos rurais – através dos SAF’s e do envolvimento da comunidade -, transformando-as em corredores florestais que conectam fragmentos da paisagem. Estas áreas de reserva são obrigatórias – pela Lei Federal nº 8.171 e pelo Decreto Estadual de São Paulo nº 50.889 – e devem alcançar no mínimo 20% das áreas das propriedades e dos assentamentos rurais.

O plantio das mudas florestais – 117 espécies nativas, como a aroeira (Myracrodruon urundeuva), o angico (Anadenanthera sp.), a cabreúva (Myroxiylon peruiferum), o cedro (Cedrella fissilis) e a guajuvira (Patagonula americana) – é realizado em espaçamento 4 x 2 metros, em consórcio com o feijão guandu na linha de árvores entre as mudas. Nas entrelinhas são cultivadas culturas agrícolas de ciclo curto.

No Assentamento Santa Zélia, já foram implantados 75 hectares de SAF’s através do trabalho conjunto entre os pesquisadores do IPÊ e 32 famílias de agricultores. Eles receberam do Instituto 125 mil mudas de espécies florestais nativas e todo o apoio técnico necessário para realizar os plantios e a manutenção dos sistemas. “Ninguém é obrigado a participar do projeto. A proposta educativa desenvolvida faz com que os assentados entendam a importância do trabalho e comecem a aderir às ações”, enfatiza Beltrame.

Um importante componente socioeconômico está contido nos sistemas agroflorestais: as famílias beneficiam-se diretamente com a venda dos produtos agrícolas plantados nas entrelinhas dos sistemas – feijão, milho, amendoim, mandioca e batata-doce. Após três anos, cada família obteve uma renda anual média de 1.900 reais, o que representou um incremento médio de 11% na renda total das famílias envolvidas. Também se destaca a redução dos custos de manutenção do sistema devido à ocupação das entrelinhas com as culturas anuais, tornando-o produtivo e barato.

“Este trabalho mostra que a restauração ecológica pode ter grande sucesso quando a população local é estimulada e envolvida com a causa da conservação ao invés de ser isolada e tratada como um problema. Ressalta também a importância de trabalhos comunitários e participativos, onde todos os agentes se beneficiam diretamente por estarem promovendo a conservação ambiental”, conclui o pesquisador do IPÊ.
(Fonte: Sara Nanni / IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas)

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