Brasil abraça biodiesel sem plano estratégico, dizem analistas

Todos os caminhos do biodiesel brasileiro, hoje, levam à UE – União Européia. Ao mesmo tempo em que é grande o potencial do produto nacional de entrar em um mercado importante, barreiras econômicas, ambientais e logísticas poderão impedir que esse fluxo tenha início.

Especialistas afirmam que, ao ir com muita sede ao pote do combustível verde, os produtores brasileiros e o governo poderão ver muitas oportunidades serem perdidas, por falta de um plano estratégico.

“O Brasil ainda não exporta biodiesel, apesar de estar perto disso. Há uma série de barreiras externas que não podem ser desprezadas neste momento”, disse à Folha o consultor em energia Roberto Kishinami.

A UE já anunciou sua opção pelo biodiesel. No documento “Visão para 2030”, lançado no ano passado, fica claro que o objetivo do grupo europeu é chegar daqui a 23 anos com um quarto de seu sistema de transporte funcionando com combustíveis não-fósseis. Na semana passada, o bloco anunciou uma meta de redução de 20% nas suas emissões de gases de efeito estufa – novamente, com auxílio dos biocombusíveis.

Na próxima quarta-feira (24), nos EUA, o presidente George Bush fará seu discurso anual no Congresso. Na pauta, a importância estratégica de apostar todas as fichas no etanol.

“A Alemanha já definiu uma posição de restrição à importação de biocombustíveis que não comprovem cumprir com preocupações socioambientais”, avisa o consultor.

Isso significa que óleo nenhum será comprado de lavouras onde existirem trabalho infantil ou escravo, onde houver desmatamento e uso excessivo de pesticidas, além do plantio das polêmicas sementes geneticamente modificadas.

Segundo Kishinami, a posição alemã já foi submetida aos dirigentes da UE, que deverá adotar a prática. “Essas questões são certamente ampliadas pelo lobby dos agricultores europeus, que não querem concorrência com o Brasil ou qualquer outro país competitivo”.

O próprio presidente da Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Silvio Crestana, está ciente dessas dificuldades. Segundo ele, lá fora, existem hoje duas críticas principais ao país.

“A primeira é sobre a falta de garantia de um fornecimento regular. A segunda é sobre a certificação.” Para o presidente da Embrapa, ligada ao Ministério da Agricultura, está na hora de o Brasil se preocupar com a questão da “acreditação”. “Quem estiver fora dos padrões terá feito o investimento e não conseguirá vender depois”, afirma.

O próprio Crestana compara a construção do projeto do biodiesel brasileiro a uma casa. “Nós, muitas vezes, começamos a obra pelo telhado. Não podemos esquecer a produção de biomassa”, lembra o dirigente público.

Dentro dessa falta de planejamento nacional, Weber Amaral, diretor do Pólo Nacional de Biocombustíveis, órgão também criado pelo Governo Federal que funciona no campus da USP – Universidade de São Paulo em Piracicaba, prefere fincar bem os pés na terra.

“Antes de mais nada é bom dizer que os biocombustíveis não são a solução de todos os nossos problemas. Em escala mundial, eles vão responder por, no máximo, 20% da demanda energética. Nunca haverá uma participação maior do que essa”, disse.

Para Amaral, faltam planos estratégicos que identifiquem os principais gargalos para o mercado dos biocombustíveis de uma forma geral. “O Brasil não tem, por exemplo, uma padronização do álcool que é exportado hoje”, lembra.

Em 2006, foram mandados para o exterior 3 bilhões de litros de etanol. A maior parte dessa produção foi descarregada nos Estados Unidos. O biodiesel, no curto prazo, não deve pesar muito nas exportações.

Monopólio – O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, do primeiro governo Lula, também sabe da importância de não tratar a questão do biodiesel como uma panacéia. “Temos que ter cuidados com os grupos que querem apenas se aproveitar da situação e que não estão totalmente envolvidos nesse processo”, disse Rodrigues, agora professor da USP.

O ex-ministro, que coordenou um evento sobre o tema no fim do ano passado no IEA – Instituto de Estudos Avançados, diz crer no potencial da agricultura brasileira, principalmente em relação a produção de etanol e biodiesel. Para ele, isso não será o problema.

No mesmo evento, entretanto, vários gargalos internos foram discutidos pelos debatedores. Para Guilherme Dias, da FEA – Faculdade de Economia e Administração da USP o desenho do modelo, baseado no monopólio da Petrobras em vez da gestão descentralizada do biodiesel, é algo que preocupa.

“Além disso, é preciso ter em mente que haverá uma competição entre as plantações de biomassa para óleo vegetal e para a alimentação humana. Não adianta dizer que não”, afirma o economista.

Para ele, o biodiesel deve competir com o óleo diesel, dentro de uma verdadeira lógica de concorrência. “E isso não ocorre com o atual sistema nacional de leilões (pelos quais a Petrobras compra biodiesel dos produtores)”, disse.

Ineficiente – Para Amaral, da USP, ainda são muitas as variáveis internas que precisam ser dimensionadas, antes mesmo da ponta da cadeia produtiva. “Por causa da questão logística, a matéria-prima tem de estar sempre perto da indústria. Não é apenas o preço final do biodiesel que importa. É preciso saber qual o balanço energético, e de carbono, que cada uma das matérias-primas em questão apresentam.”

Segundo as contas de Amaral, baseadas em vários estudos, a soja – que desponta como a matéria-prima de escolha do Brasil – é uma das piores opções, se levada em conta somente a questão energética.

Além de o volume de líquido extraído dela ser pequeno (apenas 18% do grão de soja vira óleo), ela tem uma relação de quatro para um entre a energia produzida e consumida: ou seja, um quarto do teor energético de uma saca de soja equivale ao que foi gasto para cultivá-la.

Cana campeã – O campeão nesse quesito é o etanol, que tem um índice energético médio de dez (gera dez vezes mais energia do que se consome em sua produção). O dendê, cultivado na Amazônia brasileira, apresenta um índice 5. As variações dependem do tipo de estudo feito, que leva em conta topografia, clima e solo de cada região.

Na categoria quantidade de óleo por planta, o girassol, a mamona, o algodão, o pinhão-manso, o amendoim e o dendê estão na frente da soja. Entre todos esses vegetais, pode-se tirar de 30% a 60% de óleo vegetal de cada grão.

O Brasil, que investiu entre 2003 e 2005 a quantia de R$ 16 bilhões em projetos realizados sobre o biodiesel, vai investir o dobro nos próximos dois anos, também por essa mesma via.

Isso, com o intuito de gerar conhecimento científico de qualidade em todos os estados da Federação e ainda recursos humanos que sejam capazes de desatar os nós tecnológicos que vão surgir. Tudo indica, porém, que é essa é a parte mais fácil de resolver dessa equação. (Eduardo Geraque/ Folha Online)