Serras do Piauí: tesouros de florestas desconhecidas

Veadinho, tatu-bola, lagarto: esses são os donos do território. Tão próximos, livres e sem nenhum receio. É o reino animal em estado ainda selvagem. Em pleno sertão do Nordeste.

Primitivo, imprevisível, instigante: assim é o camaleão da caatinga. E, para surpresa geral, também foi encontramos uma ave que havia sumido da região nordestina: a inhuma ou anhuma, que pode ser encontrada nas áreas alagadas do sul do país mas estava desaparecida do Pantanal do Sertão. Esse é o paraíso da coroada ave azul.

Isso mesmo! No sul do Piauí descobrimos o Pantanal do Nordeste, “transbordando” vida selvagem. Até o sol parece mais radiante, mais brilhante. E lá vêm as curicacas pelo céu do Piauí. Ouça o canto.

O zoólogo Luís Fábio Siqueira, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), acompanha de longe os domínios da inhuma. As imagens de tão perto foram gravadas com uma lente especial de longo alcance. A inhuma é arredia, ia fugir se alguém fosse até lá.

“Foi muito gratificante ver essa ave no Nordeste. Ela gosta de uma lagoa bem limpa, bem preservada, com floresta em volta. É uma ave muito especial. Ela tem uma projeção no alto da cabeça, mas também porque é um parente distante dos patos. Apesar de não parecer, a inhuma é um dos parentes primitivos dos patos que a gente conhece”, diz o pesquisador. “Eu tinha dúvidas se ia encontrar. Eu já trabalhei em vários estados do Nordeste e nunca tinha tido a oportunidade de ver a inhuma nessa região. Estou bem contente de poder ver mais de dois casais de anhuma por aqui”, emociona-se zoólogo Luís Fábio Siqueira.

De helicóptero, foram vistas dezenas. E só de helicóptero é possível conhecer o Pantanal do Nordeste. Como ninguém entra na área, as área, as aves se reproduzem ali. Um ninho foi construído em uma ilhota de uma lagoa. Elas se assustam com o barulho do helicóptero, mas não vão muito longe porque são pesadas.

Já o maguari, tipo de cegonha comum no Sul e na Amazônia, mas rara no Nordeste, segue num vôo muito bonito. E lá embaixo, água em abundância na região mais desértica do país. É a prova de que existe sim o Pantanal do Sertão.

Flagrante de devastação

Outra maravilha filmada pela primeira vez é a Serra Vermelha. São paredões avermelhados, daí o nome. A Serra Vermelha tem um manto verde.

Nas encostas da serra, o lugar da mata virgem já tem pasto. Os criadores de gado e plantadores de soja estão retirando a floresta. Embaixo do desfiladeiro, o desmatamento é evidente. A vegetação foi arrancada abrindo espaço para o gado e para a plantação de soja. São flagrantes da devastação, agressão à natureza e benefício de atividades comerciais..

Uma estrada vai cortando a mata em linha reta por mais de 60 quilômetros. Em 20 minutos sobrevoando a Serra Vermelha é encontrada uma área desmatada do tamanho de uma pista de pouso de aviões. De repente, fumaça – sinal de fogo! A floresta está sendo queimada.

Uma fileira de 300 fornos em plena atividade na terra encharcada pela chuva. E, mais adiante, montes de madeira que vão virar carvão. Os caminhões saem carregados. Diante de tantas evidências, resolvemos apurar a origem do desmatamento. E foi assim que descobrimos o que estão fazendo com a floresta virgem da Serra Vermelha.

Voltamos de carro pela estrada barrenta e escorregadia. Cruzamos com caminhões cheios de carvão. Nossa equipe levou mais de uma hora dentro da área do projeto para alcançar os fornos. Ao lado deles estavam os alojamentos dos empregados, que dormem em containers. e o fogo queimando as árvores da caatinga, ofuscando o brilho do sol.

Uma ironia com a natureza. O projeto que desmata e transforma a floresta em carvão tem o nome de Energia Verde e está aprovado pelo Ibama, o órgão responsável pela fiscalização dos crimes contra o meio ambiente.

O que o Ibama vai dizer, então, para um pequeno produtor que queima uma roça para plantar, uma vez que ele está permitindo que desmatem uma área de 114 mil hectares?

“Essa área que está sendo desmatada vai ficar para regeneração, o que não acontece em áreas de agricultura, que são uma vez desmatadas e continuamente cultivadas”, justifica o analista ambiental do Ibama em Brasília, Alexandre Sampaio.

Quando perguntado se pode queimar a floresta para fazer carvão, o analista responde: “Você está me apertando”.

Há divergência sobre a aprovação do projeto dentro do próprio Ibama.

“Eu, particularmente, trabalho com a conservação e preservação, e não concordo com isso. Por conta de que o ecossistema da caatinga é um bioma que só existe no Brasil. Essas áreas são os últimos remanescentes de caatinga nativa que existem no país. Eu considero que essa área da catinga tinha que ser preservada“, afirma Eugênia de Medeiros, analista ambiental do Ibama do Piauí.

O corte da motosserra não é a morte da árvore neste projeto? Isto não é desmatamento? Quem responde é o engenheiro florestal do projeto, Eliseu Corsato: “Mas não é desmatamento. Isso é plano de manejo florestal sustentável. Você é que está pensando em desmatamento de correntão. Não é”, assegura.

A diferença é que não é de correntão, é de motosserra…

“Você não está arrancando toco”, explica o engenheiro.

O engenheiro ficou de mostrar os tocos, mas a equipe explorou os arredores e foi para o meio da floresta e não encontrou tocos florando.

“Isso aqui tem três meses de corte”, alega o engenheiro Corsato.

Outro engenheiro florestal do projeto, Geraldo Leal Jr, leva nossa equipe a uma outra parte da floresta que está renascendo.

“Vocês podem observar que (o toco) está acima de dois metros”, mostra Geraldo Leal Jr.

(Fonte: Portal do Globo Repórter)