Geleiras derretem no Himalaia e ilhas desaparecem na Índia

As geleiras do Himalaia estão derretendo, as ilhas do leste da Índia estão ficando embaixo d´água e os desertos do país estão sendo inundados por chuvas incomuns. Segundo ambientalistas, o cenário é um sinal dos efeitos do aquecimento global no segundo país mais populoso do mundo.

Na sexta-feira, 2, uma comissão da ONU divulgou o alerta mais incisivo já feito sobre as alterações climáticas, prevendo que as temperaturas médias no planeta ao longo do século subirão entre 2º C e 4,5º C.

Na Índia, já há indícios que comprovam a previsão de que o sul da Ásia será uma das regiões mais afetadas.

“Já estamos vendo geleiras recuando em um ritmo mais intenso, ilhas que desapareceram, e também todos esses fenômenos climáticos malucos”, disse Shruti Shukla, diretor para mudanças climáticas da unidade indiana da organização não-governamental WWF.

Especialistas dizem que o degelo dos glaciares pode ter sérias conseqüências, já que mais de meio bilhão de indianos – quase metade da população da Índia – vivem nas bacias do Indo, do Ganges e do Brahmaputra, e dependem da água dessas geleiras.

Uma pesquisa no glacial de Gangotri – que alimenta o Ganges – concluiu que seu recuo médio anual, que em 1971 era de 19 metros por ano, agora subiu para 34.

“Os glaciares são como reservatórios congelados de água, então quando os glaciares recuam, proporcionalmente há um decréscimo na água, que afeta o abastecimento de água potável, a irrigação, a geração hidrelétrica”, disse o glaciologista Jagdish Bahadur.

O aquecimento também deve afetar a temporada das monções, de junho a setembro, cujas chuvas são essenciais para a agricultura indiana.

Estima-se que um aquecimento de 2º C a 3,5º C resultará numa perda de 9% a 25% no faturamento agrícola – que representa 22% do PIB da Índia e ocupa 70% da força de trabalho.

Além disso, os pesquisadores dizem que o aquecimento fará com que doenças transmitidas por vetores, como malária e dengue, cheguem a altitudes mais elevadas, onde até então não havia mosquitos.

Segundo os cientistas, duas das 104 ilhas Sunderbans, na costa leste da Índia, sumiram nos últimos dois anos devido à elevação do nível do mar.

“Ambas as ilhas eram habitadas e milhares de pessoas foram obrigadas a se instalar em outras ilhas”, disse Sugata Hazra, que leciona Oceanografia na Universidade de Jadhavpur, no leste da Índia, acrescentando que outras 12 ilhas estão em risco.

No oeste da Índia, insólitas chuvas inundaram o desértico Estado do Rajastão, matando 140 pessoas e deixando centenas de milhares de desabrigados no ano passado.

O distrito de Barmer, que fica naquele Estado, registrou 580 milímetros de chuvas em três dias – um recorde, mais que o dobro da média para um ano inteiro.

Embora o Protocolo de Kyoto não obrigue a Índia a reduzir suas emissões de carbono, especialistas dizem que tais emissões estão crescendo e podem contribuir significativamente com o aquecimento global.

“Tecnologias limpas existem e o governo deve apresentar uma política imediata e um quadro de implementação para tratar da questão da energia para todos, ao mesmo tempo em que reduza as emissões de dióxido de carbono”, defendeu K. Srinivas, da ONG Greenpeace. (Reuters/ Estadão Online)