Reservas perdem metade das espécies de aves em menos de 15 anos

Em aproximadamente 15 anos, as Reservas Experimentais com até 100 hectares (1km x 1km) perdem metade do número de espécies de pássaros existentes. Foi o que concluiu uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, por meio do projeto de Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), uma parceria entre o INPA e o Instituto Smithsonian (EUA). A partir dos dados obtidos, concluiu-se que as áreas perdem espécies com muita rapidez. Outro dado importante é que o isolamento importa, mas o tamanho da área protegida é muito mais prejudicial, de acordo com a pesquisa publicada recentemente na revista Science.

Segundo o cientista Gonçalo Ferraz (INPA), doutor em Ecologia e Biologia Evolutiva pela Universidade de Columbia (Nova Iorque – EUA), em locais com até 10 hectares metade do número inicial de espécies de aves desaparece em cerca de quatro anos e no de 1 hectare leva menos de dois anos. “Caso os dados sejam comparados com o de mata contínua, o fragmento tem muito menos espécies. Além disso, as aves estudadas, por exemplo, o uirapuru e o papa-formiga de topete, necessitam de grandes áreas para viverem ou têm requerimentos ambientais específicos”, afirmou.

A pesquisa é considerada única no mundo por acompanhar aves em áreas de diversos tamanhos (1, 10 e 100 hectares) de mata contínua e fragmentada, mesmo antes de serem alteradas. O estudo concentrou-se na Reserva Florestal (ZF-3), localizada na BR-174 nos ramais do Distrito Agropecuário da Suframa, situados ao Norte de Manaus. No local, grupos de cientistas observam os efeitos da ação humana sobre populações de plantas, insetos e outros animais.

Durante o trabalho, foram realizadas centenas de excursões a mais de 23 locais no período de 1979 até 1993 para montar redes, capturar aves e marcá-las com anilhas (pequenos anéis de alumínio colocadas nos pés dos pássaros). Em certos lugares foram feitas até dez excursões ao ano. Observou-se que de 55 espécies analisadas, metade não é afetada pelo isolamento, mas sofre a ação da dimensão da área. O que pode ocasionar a perda da variabilidade genética e gerar indivíduos mais frágeis à ação do meio ambiente. Por isso, quanto maior a área maior será a população de aves e a possibilidade de manter a variabilidade das espécies. “O ideal é conservar a floresta, as áreas protegidas e investir em atividades econômicas compatíveis com a cobertura vegetal”, ressaltou.

Tratando-se de Amazônia, Ferraz disse que a manutenção da diversidade das espécies é fundamental por duas razões. A primeira, nas florestas tropicais os organismos são extremamente interligados, ou seja, há interações biológicas de parasitismo, predação e cooperação. Muitas delas são conhecidas pelos cientistas, por exemplo, as aves polinizam plantas, outras dispersam sementes e comem insetos. Contudo, nem todas são conhecidas, mas existem. Por isso, quando algo que não é conhecido é alterado as conseqüências são inesperadas e podem ser desagradáveis. A segunda, quando se vive em uma região como a Amazônia, em que a rede de interações ecológicas é tão única e rica no mundo se não for cuidado pelos moradores do local, ninguém mais cuidará.

Ele explicou que a pesquisa teve inicio na década de 70 quando fazendeiros receberam subsídios federais para criação de fazendas na área da ZF-3. Contudo, o INPA em parceria, na época, com a WWF, fizeram um acordo com os donos das fazendas para a manutenção de áreas de 1, 10 e 100 hectares dentro dos locais que seriam explorados. Ou seja, as ilhas dentro das áreas desmatadas funcionariam como reservas experimentais. Além disso, também foram delineadas, na mata contínua, reservas com a mesma dimensão. A ação permitiu que os cientistas fizessem amostragem dos dois cenários.

“O quadro montado possibilitou ver as conseqüências do isolamento e compará-las com a mata contínua. Outro dado interessante é que os pesquisadores começaram o monitoramento antes mesmo das áreas terem sido alteradas. Isso quer dizer que é possível analisar o antes e o depois em todas as situações, pois já se passaram quase 30 anos”, disse Ferraz.

Formas de se ter espécies em um fragmento – De acordo com Ferraz, a perda rápida e gradativa das espécies leva a outra questão: existem duas formas distintas de não se ter espécies no fragmento. A primeira, antes da mata ser cortada o fragmento já não tinha as espécies que estão faltando. A segunda, quando se deu o desmatamento a espécie estava lá, mas não suportou os efeitos do desmatamento. “Com isso, entramos no campo das probabilidades. Mas, após anos de avaliação é possível dizer que a espécie pode ter existido no local mesmo sem ter sido vista, o que é o maior problema metodológico”, ressaltou.

Segundo o pesquisador, a problemática deve-se porque ao entrar na floresta ouve-se os sons, mas não se vê os animais. Entretanto, quando o número de excursões aumenta é maior a probabilidade de encontrar algum bicho e também entender qual a melhor chance de ir ao local, o animal estar e não conseguir vê-lo. A questão é superada matematicamente, pois com as falhas é possível entender o que aconteceu. “No início da pesquisa tínhamos apenas a lista das espécies sem informações suficientes para falarmos ou estimar probabilidades”, destacou. Então, volta-se as duas formas de não se ter espécies no fragmento.

“Por isso, é importante que em se tratando de manejo, caso a ave tenha desaparecido em conseqüência dos efeitos do isolamento, há ações que podem ser tomadas para protege-la. Todavia, se ela for uma espécie de mata contínua e não mais encontrada nas reservas, não há mais solução. A conclusão que chegamos é que para conservar mais de 50% das espécies durante mais de 15 anos você necessita de muito mais de 100 hectares”, afirmou.

O cientista da Coordenação de Pesquisas em Ecologia (CPEC/INPA), Mário Cohn-Haft, disse que ainda não há riscos de extinção nas áreas estudadas. Ele também disse que as aves pesquisadas ocorrem desde as Guianas até a Bacia Amazônica. Contudo, ele alertou que cuidados devem ser tomados. “Mesmo as aves não sendo endêmicas apenas da Bacia Amazônica pode haver uma extinção local, o que poderá ocasionar um desequilíbrio ecológico”, alertou.

Formas de detectar aves – Os animais podem ser monitorados de duas maneiras. A primeira, por meio de binóculos e pela audição. A segunda, por meio de redes. As aves são capturadas, analisadas e recebem uma anilha (tipo de anel de alumínio), o qual recebe um número de identificação. Gonçalo Ferraz disse que foi optado pela metodologia devido ao custo e o tempo gasto no treinamento de profissionais para ouvir o som das aves. Além disso, com a anilha é possível fazer uma análise espacial de deslocamento etc. “A catalogação permitiu que fosse montado uma base de dados com quase 50 mil capturas”, informou.

Fapeam financiará segunda fase da pesquisa – Gonçalo Ferraz afirmou que o próximo passo é analisar os gráficos e as informações obtidas na fase anterior. O objetivo é saber quais são as características das espécies que são mais susceptíveis ao isolamento e ao tamanho da área. Para isso, foi elaborado o projeto “Dinâmica populacional e vulnerabilidade ao desmatamento em aves do sub-bosque na Amazônia Central”, o qual foi aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

Orçado em R$ 27, o projeto terá dois anos de duração e será composto por três componentes: verificar se houve falhas na pesquisa anterior, quais foram e tentar corrigí-las por meio da análises de dados e fazer as últimas perguntas. Nessa fase, das 55 espécies monitoradas, apenas oito serão acompanhadas. “Na pesquisa inicial, foi feita uma previsão de que o uirapuru de garganta preta deveria ocorrer entre 10% e 20% de manchas de 1 hectare na mata contínua. Os dados serão testados na Reserva Florestal (ZF-2 – mata contínua). O que será possível por meio de comparações entre a estimativa da ocorrência com a da previsão”, explicou.

As comparações servirão para entender se o estudo funcionou ou se por alguma razão a previsão difere daquilo que está ocorrendo agora. Segundo o pesquisador, as previsões foram feitas em determinadas circunstâncias do passado, que caso elas tenham mudado, é natural que nem todas sejam confirmadas. “Testaremos as previsões, caso não dêem certo, pode ser uma luz de alerta sobre algo que pode estar mudando. As diferenças podem ser tanto para cima quanto para baixo”, previniu.

Durante a pesquisa, os cientistas também pretendem desenvolver tecnologias para o monitoramento das aves na mata, com formas de amostragem mais eficientes. “Queremos montar e testar um sistema de gravação autônomo com o menor custo possível, programado para gravar em horários determinados. O trabalho também poderia ser feito por pesquisadores com audição treinada para captar os sons dos pássaros, mas isso demanda recursos e tempo para treinar um grande número de pessoas”, afirmou.

Segundo Ferraz, com o equipamento será possível detectar mais espécies, a abrangência será maior e as informações serão coletadas mais rapidamente. Já existem aparelhos deste tipo produzido nos Estados Unidos, contudo são pensados para detectar certas freqüências pré-programa, o que resulta num preço elevado. A intenção é verificar o que existe no Brasil e adequar a tecnologia para as características da região. A umidade, o calor e as chuvas serão o maior problema para ser superado”, alertou.
(Fonte: Assessoria Comunicação / INPA)