Escavação no Pará reacende debate sobre alvorada de civilização amazônica

“Bom dia. Com licença. Eu sou arqueóloga e estou procurando vestígios de uma civilização indígena desaparecida há 500 anos. Posso fazer um buraco no seu quintal?”

A saudação parece insólita, mas dezenas de moradores da região central da cidade de Santarém, no Pará, foram abordados dessa forma no fim do ano passado. Mais incrível ainda, vários deles permitiram que a arqueóloga paulista Denise Gomes efetivamente lhes esburacasse o terreno em busca dos tais vestígios.

A “civilização”, no caso, é a antiga cultura tapajônica, que tinha seu principal centro em Santarém e cujas espetaculares cerâmicas decoradas formam uma tradição cultural que recebe o nome da cidade.

Gomes tentou estabelecer pela primeira vez a área original do sítio principal da cultura tapajônica, o chamado Aldeia. A tarefa é inglória, porque o sítio se encontra inteiramente dentro do bairro homônimo, na região central da segunda maior cidade do Pará.

Zona arqueológica – A demarcação envolveu mesmo bater de porta em porta e realizar sondagens nos únicos lugares que não estão asfaltados – os terrenos das casas do bairro – procurando terra preta (solo característico de sítios arqueológicos na Amazônia) e cacos de cerâmica. “Até em prostíbulos nós fomos”, conta a pesquisadora, hoje associada ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

Para vencer a desconfiança dos paraenses, Gomes se fez acompanhar de “seu” Hélcio Amaral, historiador autodidata que é uma espécie de sábio local. “Onde ele não era conhecido ele se fazia conhecer.”

Os tapajós, que viveram na foz do rio Tapajós do século 13 ao 15, são emblemáticos na pré-história da Amazônia. Foi provavelmente por causa de um ataque desses índios que o cronista espanhol Gaspar de Carvajal disseminou a lenda das amazonas, no século 16, dando nome ao maior rio do mundo.

Eles são também o centro de um debate intenso na arqueologia brasileira: a existência ou não de sociedades complexas (essencialmente diferentes dos índios atuais) na floresta antes do genocídio cometido por colonizadores europeus.

A pendenga se arrasta desde a década de 1950, quando a americana Betty Meggers começou a escavar na Amazônia. Suas pesquisas negavam indícios de sociedades altamente estruturadas, apesar de cerâmicas achadas em Santarém e Marajó atestarem o contrário.

Na década de 1980, outra americana, Anna Roosevelt, escavou em Marajó e propôs que, sim, houve sociedades complexas na floresta, que se organizavam em chefaturas (um estágio intermediário entre tribo e Estado). Outros estudos feitos nas últimas duas décadas e meia têm confirmado partes do modelo de cada uma.

Santarém, no entanto, permanece uma incógnita: o grau de urbanização é tão grande que o sítio da Aldeia, a “capital” da suposta chefatura, nunca foi escavado sistematicamente. Roosevelt foi a única cientista a fazer pesquisas ali, em uma área do porto da cidade, mas ela nunca publicou seus resultados nem levou o trabalho adiante, devido a problemas com o Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Micrópole – Um dos diagnósticos da complexidade social é o tamanho da área ocupada por uma determinada aldeia. Roosevelt estimou que o sítio da Aldeia tivesse 500 hectares, algo como um quadrado com 5 km de lado (dimensões respeitáveis até para algumas cidades amazônicas modernas). Isso batia com os relatos dos cronistas dos séculos 16 e 17, que juraram ter visto ali, à margem do rio, “cidades que reluziam de brancas”.

Em sua pesquisa, Gomes coletou amostras de cerca de cem pontos em várias áreas da cidade. O que ela descobriu foi que os vestígios de cerâmica se concentravam em uma área bem menor que a estimada por Roosevelt – 120 hectares – e desapareciam além dela.

“Não encontrei nenhuma estrutura nos outros locais”, afirma a arqueóloga. Ela diz também que a antiga aldeia escavada por Roosevelt no porto de Santarém é uma ocupação diferente do sítio Aldeia – provavelmente uma outra aldeia que coexistiu com a vila maior.

“A gente percebe uma enorme diversidade. Não tinha só tapajós ali”, diz Gomes. Para ela, a idéia de uma grande sociedade hierarquizada não se sustenta: o mais provável era que as tribos da região tivessem estrutura política e social parecida com a dos índios atuais. “Esse modelo da Anna Roosevelt de afirmar que há grandes distâncias entre os índios do passado e os de hoje parece superdimensionado.”

Diagnóstico apressado – A americana, que deve retomar o trabalho em Santarém neste ano, diz que a colega paulista pode estar colocando o carro na frente dos bois.

“Sondagens desse tipo podem produzir resultados fragmentados mesmo em áreas de ocupação contínua”, afirma. “Todas as cidades e vilas arqueológicas ou etnográficas que eu já escavei eram compostas de grandes áreas com poucos artefatos. Os vestígios só estão concentrados em sepultamentos e depósitos de lixo.”

“Além disso”, continua Roosevelt, “os pesquisadores que propuseram que a cultura Santarém poderia ser complexa o fizeram com base na cerâmica e na informação etno-histórica, não na natureza do sítio em si.” (Claudio Angelo/ Folha Online)