Apesar de danos, preservação “excede expectativa” nas Galápagos, diz cientista

Se Charles Robert Darwin visitasse novamente as ilhas Galápagos por ocasião de seu bicentenário, na próxima quinta-feira (12), o que ele pensaria? Certamente, afirmam cientistas e ambientalistas, o britânico não ficaria tão desapontado com a atual conservação do arquipélago. Mas, observador como era, notaria alterações que lhe causariam preocupação.

Peter Kramer, hoje presidente do Conselho da Fundação Charles Darwin, resume a situação: “Eu morei nas Galápagos entre 1962 e 1963, e depois de 1970 a 1973. Estive lá muitas vezes desde então. A explosão no número de habitantes, provocada pelo turismo, é uma mudança dramática. Mas a recuperação de algumas ilhas, como Pinta, Santiago e Santa Fé, em consequência da remoção dos mamíferos invasores, é outra”, conta ele, que já trabalhou no WWF, que atua na região.

Segundo a ONG, cerca de 15 mil pessoas vivem nas ilhas Baltra, São Cristóvão e Santa Cruz. Além disso, em torno de 75 mil turistas visitam o arquipélago por ano.

“Talvez Darwin ficasse surpreso ao ver mudanças na população das ilhas. Onde antes havia apenas pequenas vilas, agora existem pequenas cidades com carros”, afirmou Felipe Cruz, que trabalha na fundação e mora em Santa Cruz.

Morte sobre rodas – Os carros acabam se somando às espécies exóticas como causas de danos ambientais. Um relatório da Fundação Darwin estima que, entre 2004 e 2006, cerca de 9.000 aves foram mortas em estradas, em colisões com carros, na ilha de Santa Cruz, centro turístico e econômico do arquipélago.

Ao comparar os anos de 1980 e 2004, concluiu-se que o número de aves mortas por quilômetro pesquisado passou de 0,43 para 0,70.

O crescimento de 4.457% da frota explica o aumento: enquanto em 1980 havia 28 veículos em Santa Cruz, em 2006 o número aumentou para 1.276. No total, existem 177 espécies de aves registradas em Galápagos. Dessas, 56 só podem ser encontradas ali. E 23 estão ameaçadas de extinção.

Tentilhões – Na opinião do bem-humorado Kramer, se voltasse às Galápagos Darwin “ficaria encantado (e um pouco envergonhado, já que era um homem modesto) ao saber que o grupo de pequenos tentilhões ao qual ele não deu muita atenção recebeu nome em sua homenagem”.

Os tentilhões-de-darwin são o exemplo mais ilustre de evolução em ação: 14 espécies surgiram nas Galápagos a partir de um ancestral comum, e a ecologia das diferentes ilhas produziu variações em seus bicos.

Diferentemente do que diz a lenda, quando visitou o arquipélago, Darwin não deu bola para esses pássaros e nem sequer se esforçou para etiquetar corretamente os espécimes que coletou. Só percebeu o erro (e a importância das aves) quando voltou à Inglaterra, em 1836.

Filantropia – Mas, por outro lado, seria um choque “ver tantas espécies ameaçadas”. “Ele dedicaria o lucro da publicação de sua viagem para apoiar a conservação dessas ilhas”, brinca Kramer.

Para ele, Galápagos é o único arquipélago tropical ou subtropical no mundo cuja ecologia ainda lembra a situação de 500 anos atrás. Além disso, é uma fonte de rendimento sustentável para o Equador, “em contraste com o petróleo que logo, logo terá acabado”.

Pode-se mesmo dizer que a conservação das ilhas está além de qualquer expectativa existente no passado. De acordo com Cruz, em 1905 e 1906 a Academia de Ciências da Califórnia fez uma expedição ao arquipélago para coletar amostras da biodiversidade das ilhas como uma forma de exibir para a futura geração.

“O mundo acreditava que as Galápagos não iriam sobreviver. Agora, cem anos depois, estamos num estado de conservação muito melhor!” (Fonte: Afra Balazina/ Folha Online)