Funai descarta canibalismo entre tribos indígenas no Brasil

A Fundação Nacional do Índio (Funai) descartou a prática de canibalismo entre povos indígenas no Brasil. A informação foi divulgada depois da suspeita de que pelo menos seis índios da tribo kulina tivessem matado e ingerido partes do corpo de um rapaz de 21 anos, em Envira (AM).

A vítima desapareceu em 1º de fevereiro e o corpo encontrado, no dia seguinte, nas terras da aldeia indígena kulina.

Em nota à imprensa, a Funai informou que “a prática de antropofagia entre os povos indígenas no Brasil contemporâneo não ocorre mais. Segundo o documento, a única informação a respeito deste costume data do período colonial”.

Ainda de acordo com a Funai, em relação ao assassinato de Océlio Alves Carvalho, 21 anos, por quatro indígenas da etnia kulina, não se pode afirmar que houve a prática de canibalismo. A polícia, no entanto, trabalha com pelo menos seis suspeitos do crime.

A Funai confirmou que a morte ocorreu às margens de um igarapé dentro da aldeia Cacau, onde vivem os kulinas. No local, ainda segundo a fundação, foram encontradas diversas garrafas de aguardente.

Segundo o documento da Funai, a vítima tinha convívio social com os indígenas e consumia bebidas alcoólicas dentro da aldeia.

Investigação – A Funai informou que o Chefe de Posto Indígena Eirunepé foi ao local para auxiliar a retirada do corpo e colaborar com a investigação policial. O grupo indígena kulina não é considerado isolado.

A Administração Executiva Regional de Manaus, que coordena a aldeia onde ocorreu o crime, acompanha o caso. Os responsáveis poderão ser processados e julgados de acordo com a legislação vigente.

Segundo a polícia, todos os suspeitos estão foragidos. Um deles chegou a ser preso, mas foi liberado por interferência da Funai.

Morte – Segundo o laudo do Instituto de Medicina Legal (IML) de Envira, a morte foi provocada pela quantidade de facadas no corpo da vítima, que tinha cerca de 60 marcas, seguida de esquartejamento. “Os órgãos foram assados em uma espécie de ritual na aldeia. Não foram encontrados o coração, cérebro, fígado e outros pedaços do corpo”, disse o sargento José Carlos Correia da Silva, da Polícia Militar, e que também responde pela delegacia da cidade.

Ainda de acordo com ele, os índios suspeitos foram identificados apenas pelos nomes civis que usam no convívio social. “São índios civilizados. Não sabemos os nomes indígenas, apenas como são chamados na cidade”, disse o sargento.

Canibalismo – Segundo a Organização Não-Governamental (ONG) Operação Amazônia Nativa (Opan), o canibalismo não é característica da cultura dos índios da tribo kulina, ou madija, como os próprios integrantes costumam se auto-denominar. “Isso seria um fato inédito. Nunca ouvimos um caso como esse. Os kulinas não são antropofágicos. Só temos referências de antropofagia em índios tupinambás e aruaques, mas que já entrou em desuso há muitos anos”, disse Ivar Luiz Busatto, 58 anos, indigenista e coordenador da Opan.

A indigenista Rosa Maria Monteiro, 59 anos, disse que conviveu 15 anos com os índios da tribo kulina, em Envira, e também desconhece algum caso de canibalismo na região. “Isso é um absurdo. Não acredito que isso tenha ocorrido. Não tenho informações sobre o caso ainda, mas praticamente posso assegurar que não houve canibalismo.”

Rosa disse ainda que o alcoolismo na tribo é grande e pode ter provocado alguma alteração na conduta dos índios suspeitos da morte e esquartejamento. “Fiz pesquisas com eles por 15 anos. Eles bebem, ficam violentos, mas não há nada que justifique o canibalismo. Isso só poderia ocorrer em algum tipo de ritual muito estranho e macabro. Se isso realmente se confirmar, a própria tribo vai estipular alguma punição, que pode ser até a expulsão da tribo.”

A indigenista disse que conhece alguns dos suspeitos do crime e considera que todos sejam calmos. “Pelo menos durante o tempo em que fiz pesquisas e atuei na tribo deles, todos me pareceram calmos e sem características violentas. Realmente, acho estranho esse caso de canibalismo.” (Fonte: G1)